Planalto articula para 2012 encontro entre Dilma Rousseff e Bento XVI

Visita faz parte da tentativa de estabelecer 'trégua' entre as partes depois das polêmicas que envolveram a candidata e a Igreja durante campanha eleitoral

Jamil Chade, de O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2010 | 16h18

GENEBRA - O Vaticano cobra do novo governo de Dilma Rousseff um compromisso para que não reabra o acordo que rege as relações bilaterais e que foi alvo de muita polêmica. O assunto foi debatido ontem em uma reunião entre o secretário da Santa Sé para Relações com os Estados, Dominique Mamberti, e Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No mesmo encontro, fixou-se que Dilma fará uma viagem ao Vaticano em 2012 para se reunir com o papa Bento XVI.

 

A visita já está sendo organizada pelo Palácio do Planalto e pela Santa Sé e faz parte da tentativa de se estabelecer uma "trégua" entre o Vaticano e Dilma depois das polêmicas entre Dilma e a Igreja durante a campanha eleitoral.

 

Dilma decidiu na última quinta-feira tomar a decisão de aproveitar a ida de Carvalho à Roma para mandar um recado à Igreja de que seu governo não abrirá guerra contra a Santa Sé. Enviou por meio de Carvalho uma carta ao papa, pedindo que a Igreja "não recue" em relação ao Brasil, estabelecendo uma trégua e insistindo que o governo conta com a Santa Sé para aplicar seu projeto de erradicação da pobreza.

 

A carta, ainda mantida em sigilo até amanhã quando será lida pelo papa, pede também sua bênção para o governo e assegura que quer diálogo com o Vaticano. "O que nós queríamos e acho que conseguimos era limpar de uma vez por todas o mal estar da campanha eleitoral", admitiu Carvalho.

 

Nem a carta e nem a reunião de ontem tratou do aborto. Mas Carvalho admitiu que a campanha de Dilma viveu "momentos de grande tensão" diante dos comentários do Papa sobre o assunto, poucos dias antes do segundo turno.

 

Bento XVI, em uma reunião com bispos do Maranhão, condenou a descriminalização do aborto e da eutanásia e recomendou aos bispos brasileiros que emitissem "juízo moral" sobre essas questões, mesmo em "matérias políticas". Embora não tenha feito referência direta à eleição, o papa pediu aos bispos que orientassem os fiéis a usar o voto para a "promoção do bem comum".

 

"Não sabíamos que direção esses comentários tomariam", admitiu Carvalho. "Foi um momento de grande tensão", insistiu. Ele, porém, acusou "forças no Brasil" por terem influenciado o Papa a fazer tais declarações e garantiu que Dilma considera o assunto como fazendo "parte do passado".

 

Viagem

 

Do lado do Vaticano, Mamberti confirmou que o Brasil é de "importância fundamental" para a Santa Sé e que uma visita de Dilma em 2011 ao Papa seria relevante para mostrar o compromisso na relação bilateral.

 

Carvalho, porém, explicou que dificilmente a viagem poderia ocorrer em 2011. "O primeiro ano é sempre um período para amarrar o governo", explicou o emissário. "A data que se trabalha é 2012 para a visita de Dilma", apontou.

 

Mamberti também insistiu na necessidade de o acordo que rege as relações bilaterais - conhecido como concordata - finalmente entre em vigor e que não seja alvo de uma revisão por parte de Dilma. O primeiro acordo proposto pela Igreja em 2007 falava na obrigatoriedade do ensino de religião em escolas públicas, acesso às reservas naturais para missionários e isenção de impostos à Igreja.

 

O Itamaraty reduziu o acordo a uma mera declaração de boas relações entre a Santa Sé e o governo. Mas mesmo assim ele foi questionado na Justiça. A concordata já foi aprovada pelo governo Lula e pelo Congresso. Mas esbarrou em um processo e está no Supremo Tribunal Federal. "Não acreditamos que isso ofereça um risco para sua entrada em vigor", garantiu Carvalho.

 

O emissário nega que o acordo será reaberto por Dilma e ainda garantiu a Mamberti que a presidente eleita não pretende azedar as relações bilaterais. "Minha principal mensagem e objetivo foi a de tranquilizar o Vaticano em relação ao que será o governo Dilma", explicou ao Estado por telefone Carvalho, ao sair da reunião.

 

Segundo ele, o governo teve de negociar cuidadosamente o texto para manter o caráter laico do estado e ainda atender a todos os demais cultos. "Não podemos esquecer que 22,5% da população brasileira é composta de evangélicos", disse.

 

"Mas o que eu expliquei é que não haverá uma diferença qualitativa entre o governo Dilma e o governo de Lula em relação à Igreja. Expliquei que Dilma não tem a intenção de mudar nada e nem desfazer a relação construída nos últimos anos", afirmou. "Na realidade, o que a carta diz é que a Igreja é fundamental para o projeto de Dilma de erradicação da pobreza", contou.

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