Planalto age para debelar focos de traição na eleição da Câmara

Ministros e até ex-ministros de outras legendas foram escalados para operar em suas bancadas a favor de Arlindo Chinaglia (PT)

DANIEL CARVALHO , JOÃO DOMINGOS / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2015 | 02h03

O Palácio do Planalto decidiu operar para debelar focos de traição em partidos da base contemplados com ministérios neste segundo mandato da presidente Dilma Rousseff e escalou representantes para direcionar as bancadas das siglas a favor da candidatura de Arlindo Chinaglia (PT-SP) à presidência da Câmara. A eleição será no dia 1.º de fevereiro.

Ministros e até ex-ministros de outras legendas foram escalados para operar em suas bancadas a favor de Chinaglia. No PP, o escolhido foi Aguinaldo Ribeiro (PB), ex-ministro das Cidades de Dilma. Dono da quarta maior bancada da Câmara, com 36 deputados, o partido ainda vai se reunir no final do mês para fechar posição na eleição, mas a maioria tende a apoiar Cunha.

A legenda migrou das Cidades para a Integração Nacional no novo desenho na Esplanada e usa essa mudança para justificar seu posicionamento majoritariamente favorável a Cunha. Segundo seus integrantes, a sigla não ficou satisfeita com a entrega da antiga pasta a Gilberto Kassab (PSD) e o partido se irritou ao saber da troca pela imprensa, o que considerou "falta de humildade" do governo. Sentindo-se desprestigiado, o PP esperava ser compensado com cargos no segundo escalão, mas o governo federal já informou que não haverá "porteira fechada", que é a ocupação integral de todos os cargos de um ministério por apenas um partido.

Lava Jato. No entanto, a avaliação corrente é a de que, como boa parte da bancada do PP é, assim como Cunha, citada em depoimentos da Operação Lava Jato, uma eventual presidência do peemedebista garantiria maior proteção aos envolvidos.

No PR, apesar de a legenda ter se mantido na bilionária pasta dos Transportes, os 34 deputados eleitos estão divididos entre Cunha, Chinaglia, e ainda há focos de apoio a Júlio Delgado (PSB-MG). O titular do ministério, Antonio Carlos Rodrigues, foi o escalado para negociar com a bancada. Integrantes do partido dizem que cargos têm sido oferecidos em Estados administrados pelo PT em troca de apoio a Chinaglia. Procurado, o ministro disse por meio de sua assessoria que "está dedicado ao assuntos afetos ao Ministério dos Transportes e licenciado de suas atividades parlamentares".

Com o PRB, também foi feito um alerta do governo para que a sigla garanta votos a Chinaglia, já que foi "promovido" na Esplanada dos Ministérios: ocupava a Pesca e ganhou o Esporte. A maioria dos deputados, porém, pertencem à Igreja Universal do Reino de Deus e tende a apoiar Cunha.

Ontem, em café da manhã com jornalistas, o ministro das Relações Institucionais, Pepe Vargas (PT), afirmou que o governo não atua para influenciar a eleição para a presidência da Câmara. Segundo ele, que é responsável pelo diálogo com o Congresso Nacional, Dilma decidiu jogar as nomeações para as diretorias de empresas estatais e de órgãos federais para depois da eleição das Mesas Diretoras da Câmara e do Senado justamente para deixar claro que o Palácio do Planalto não quer usar as funções para ajudar um dos candidatos.

"Não formamos nosso governo com base no toma lá da cá. O governo vai ser montado por pessoas indicadas por partidos e por pessoas não indicadas. Desconheço governo que não seja formado assim", afirmou.

Na semana passada, incomodada com a atuação de ministros para fortalecer Chinaglia, a Executiva Nacional do PMDB realizou uma reunião e divulgou uma nota de apoio a Cunha. / COLABORARAM RICARDO DELLA COLETTA E TÂNIA MONTEIRO

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