Planalto acompanha e FAB pressiona para evitar greve

O Palácio do Planalto está acompanhando os sinais de comportamento e disciplina registrados nas unidades militares da Aeronáutica para tentar evitar problemas no tráfego aéreo e manifestações que possam levar a novas paralisações ou atrasos nos aeroportos do País durante o feriadão da Semana Santa.Desde a manhã de terça-feira, militares do Cindacta 1 (Brasília) endureceram com os controladores, fazendo reuniões a cada novo turno de trabalho, com duras ameaças aos sargentos que se amotinaram na sexta-feira. Os controladores estão sendo avisados de não podem cometer nenhum deslize no trabalho, o que pode levá-los até a prisão.Ciente de que o motim que parou todos os vôos no País foi desencadeado pela transferência do sargento Edileuso Souza Cavalcante - uma das inúmeras punições administrativas que a FAB vinha aplicando em todo o País -, o Planalto entrou em ação imediatamente ao tomar conhecimento do recrudescimento do clima de tensão, no final da manhã de ontem, mandando suspender as ameaças que estavam sendo feitas e pedindo bom senso aos militares que estavam agindo com excessos.´Hora de distender´"Não é hora de ninguém desafiar ninguém. É hora de distender", afirmou ao Estado um auxiliar do presidente da República, reconhecendo que este tipo de atitude era "muito perigosa" e poderia desaguar em um novo conflito. Antes de ocorrer o motim, o Planalto sabia que a FAB estava aplicando punições, mas não tinha sido advertido que a temperatura vinha subindo dia a dia e que um movimento da gravidade de um motim que paralisaria o País estava prestes a acontecer.O clima de confronto entre controladores e a chefia do Cindacta começou com a chegada de dois oficiais aviadores para trabalharem como chefes de sala do controle do tráfego aéreo - um capitão e um major. Eles assumiram esse posto, depois do primeiro apagão, provocado pela operação tartaruga do dia primeiro de novembro, que também parou os vôos no País, para vigiar o trabalho dos controladores. Desde então, o clima azedou. Ontem à tarde, eles não compareceram ao breafing de mudança de turno e não estavam mais na sala de controle.Os controladores, por sua vez, estavam aliviados com o fato de eles não terem recebido novas ameaças na troca do turno da tarde, como vinham fazendo desde a manhã de terça. "Quem consegue trabalhar com a tranqüilidade e a segurança necessárias para a vida de milhares de pessoas que estão voando, já recebendo ameaça antes de sentar no console?", reclamou um controlador. "Eles (o governo) dizem que não querem negociar com faca no pescoço e, aí, colocam a faca no nosso pescoço, todas as vezes que entramos para trabalhar?", desabou, avisando que "isso é muito perigoso".À tarde, além de as ameaças não terem sido repetidas, o militar armado que havia sido colocado na porta de vidro que dá acesso ao centro de controle, foi retirado. "Assim fica mais fácil de trabalhar. Estamos mais aliviados", comentou o controlador, salientando que garantirão o funcionamento normal do tráfego aéreo e que não aguardarão pacientemente a retomada das negociações.ReaberturaA reabertura das negociações com os controladores só deverá acontecer lá pela segunda quinzena de abril, depois que o governo tiver certeza que a normalidade do tráfego aéreo estará garantida. Enquanto isso, o Comando da Aeronáutica continua a tomar medidas preventivas para, cada vez mais ficar menos refém dos controladores. E quando esta discussão for retomada, o timing será do Comando da Aeronáutica, que irá conduzir estas negociações. A revisão das punições administrativas, então, serão retomadas. Mas, as que virão com o IPM- inquérito policial militar, decorrente do motim de 30 de março, estão serão aplicadas pelo Ministério Público e são um problema da Justiça.Entenda o caos da última sextaNa última sexta-feira, os controladores de vôo entraram em greve e pararam os aeroportos do País por pelo menos cinco horas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava em viagem a Washington e nomeou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, para negociar com os grevistas. Além de nomear um civil para administrar o caos, Lula proibiu o Comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, de prender os controladores, o que desencadeou uma crise por quebra na hierarquia militar. Não demorou muito para o presidente recuar. Pressionado pelos militares, Lula desfez a promessa de abrir negociação salarial com os controladores e rever eventuais punições. O comando também voltou para a Aeronáutica.O presidente ainda endureceu o tom: se pararem novamente, os controladores receberão voz de prisão e os sargentos da Defesa Aérea assumirão seus postos no controle dos aviões. Acuados, os controladores já avisaram que não haverá paralisação na Semana Santa, mas ameaçam aumentar a temperatura do caos aéreo após a Páscoa. Sobre as punições, o motim da última sexta-feira resultou em pelo menos três Inquéritos Policiais Militares (IPMs), abertos pelo Comando da Aeronáutica em Brasília, Curitiba e Recife. Um quarto IPM poderá ser instaurado ainda no Recife.

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