Piva não prevê debandada caso esquerda vença

Se um partido de esquerda vencer as eleições presidenciais em 2002, poucos empresários deixarão o País.A opinião é do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva. "Os empresários mudaram, a época mudou, a esquerda é outra", afirmou. Ferrenho crítico da política econômica do governo e considerado o mais político dos presidentes da entidade empresarial mais influente do País, Piva promete um engajamento ainda maior na sucessão presidencial."Vamos assumir o papel de órgão de pressão e não mais de adesão", afirma. "Pressão construtiva, propositiva." Como prova disso, Piva, que caminha para um segundo mandato, anuncia a confecção de um plano de metas da Fiesp, que será apresentado aos candidatos a presidente da República.No programa, com conclusão prevista para agosto, a entidade fará uma análise das questões do País e apresentará soluções, sobretudo para as "causas da produção". Segundo Piva, serão estabelecidas metas qualitativas e quantitavivas. Haverá, por exemplo, a definição do limite da taxa de juros anuais suportável pela indústria."Vamos mostrar o que significa a taxa de juros em todos os âmbitos, para a empresa e no peso da dívida pública." Os industriais sugerirão também a porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB) que o País terá de investir em educação para que o índice escolar do trabalhador brasileiro (em média, cinco anos) atinja níveis coreanos (12 anos). "Não é plano de governo porque isso é coisa de candidato e partido", ressalta. Ele revela, no entanto, que o documento trará metas e formas de distribuição de renda no País, políticas de desenvolvimento regionais, um plano de reforma tributária e sugestões de modificação da legislação trabalhista. "Historicamente, sempre recebemos os candidatos a presidente; ouvíamos o que tinham a dizer, batíamos palma, eles saíam felizes e nós, frustrados, porque não havíamos dito o que queríamos", observa Piva."Agora, vamos inverter o processo: seremos pró-ativos, e não somente reativos."A intenção é, a partir do segundo semestre, chamar à sede da entidade, na Avenida Paulista, em São Paulo, os pré-candidatos e os presidentes dos partidos. O presidente da Fiesp não acredita que os temas tratados pelo programa possam ser contemplados ainda no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso."Vejo o tema político ganhando muito espaço e, com isso, as bases de apoio esfacelam-se e há dificuldade de consenso para grandes temas, como a reforma tributária", diz."Podemos avançar muito pouco, e esse pacotinho até ajudou em algumas coisinhas, como a desoneração das exportações." Os avanços necessários ao País, segundo Piva, não ocorreram nas duas gestões de Fernando Henrique por causa da visão predominantemente financeira, que chama de "obsessão monetarista".Piva avalia que houve uma escolha equivocada do governo em manter a estabilidade a todo custo, sacrificando o desenvolvimento."A primeira gestão era mais complicada porque enfrentava a inflação, mas a segunda era para ter um projeto de desenvolvimento", diz. "Isso nos custou caro." Piva afirma que os empresários brasileiros têm a impressão de que o tema política industrial é tratado como palavra maldita em Brasília. O presidente da Fiesp diz que foi tratado como "anarquista" e "alarmista", quando alertou para os riscos com o câmbio. Mais recentemente, quando opinou sobre a falta de energia e a necessidade de investimento em linhas de transmissão."Agora, venho dizendo que teremos um grave problema na nossa balança comercial", afirma. "É esperar e ver onde vamos parar." Piva vê avanços no fato de o PT e as demais legendas terem interesse em apresentar os programas econômicos com antecedência. Sobre o ideário petista, limita-se a dizer que vislumbrou pontos que não levam em consideração a "inserção global competitiva" do País. "E precisa, esse e qualquer programa, se livrar do viés voluntarista." Piva credita a ascensão dos candidatos de esquerda nas pesquisas ao baixo nível de popularidade do governo.Mas isso não levará a uma debandada de 800 mil empresários, como previu, em 1989, o ex-presidente da Fiesp Mário Amato. "Muito poucos vão fugir, porque o Brasil é muito maior do que todos os partidos de esquerda", analisa. "Ninguém abre mão de um mercado de 160 milhões de consumidores."

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