Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Piracicaba mantém viva memória do ‘filho’ Prudente de Morais

Nascido em Itu, primeiro presidente civil do País tem a história preservada no interior paulista

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

18 de novembro de 2019 | 05h00

PIRACICABA - Primeiro presidente civil do Brasil, Prudente José de Morais Barros nasceu em Itu (SP), em outubro de 1841, mas passou 32 anos de sua vida em Piracicaba, onde morreu. A cidade mantém viva a memória do político que a adotou como sua. O casarão onde morou, numa esquina da Rua Santo Antônio, no centro, está bem preservado. Tem nove cômodos de estilo eclético – do neogótico ao imperial –, contrastando com as construções modernas da região.

O restauro concluído em 2009 recuperou formas e cores originais da casa térrea. Desde 1957, o imóvel abriga o Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Morais. “O prédio é tombado nos três níveis, municipal, estadual e federal. Por isso, tudo nele é original, desde as madeiras das portas, piso e forro até as paredes e o acabamento”, conta o historiador Maurício Beraldo, assistente de ação educativa e programação do museu. Ele conta que a cores originais das paredes, branca, amarela e bordô, foram recuperadas.

A antiga sala de visitas da família Morais e Barros virou um espaço para exposições temporárias. O acervo de 12 mil peças aborda a história de Piracicaba desde os primórdios, mas o foco principal é a vida de Prudente. A frase de cunho próprio, ao lado de um quadro com a foto do ex-presidente, define quem era Prudente de Morais: “Sou prudente no nome, prudente por princípios e prudente por hábito. Sou também prudente, procurando evitar questões pessoais odiosas”. Ao lado, a reprodução de um comentário comum, na época, de que o então presidente era “prudente demais”.

Em outra sala, uma caderneta de anotações originais confirma sua fama de meticuloso e regrado nos atos. Todos os seus gastos eram anotados, desde as despesas de hotel, até a gorjeta dada aos criados. No rol de “despesas miúdas”, o gasto mais elevado, de 1.250 réis, foi despendido na compra de um livro. “Era um homem comedido inclusive financeiramente. Quando estava na Presidência, recusava nomes famosos da alta costura carioca e mandava fazer seus ternos em Piracicaba mesmo. Ele controlava até os gastos dos filhos, assim como a vida escolar e pessoal deles”, conta o historiador.

Na sala de objetos pessoais, estão fotos da sua mulher, Adelaide, e dos dez filhos de Prudente – seis mulheres e quatro homens – um dos filhos, ele teve fora do casamento. O museu guarda em reserva técnica uma coleção com ao menos 60 cartas que Prudente de Morais trocou com a família. “Quando ele estava no Rio, no exercício da Presidência, a mulher e três filhas o acompanharam, mas os demais filhos ficaram em Piracicaba. Assim, ele escrevia cartas com frequência, perguntando da saúde, dos estudos, do comportamento em casa”, conta.

Em uma das cartas, Prudente intrometeu-se no namoro de um dos filhos, por considerar que a senhorita não era adequada para ele. O presidente ameaçou cortar a “mesada” do jovem e o affaire foi rompido. Os símbolos da maçonaria estão presentes em objetos e mimos recebidos pelo republicano, que foi fundador de uma loja maçônica de Piracicaba. Na sala, chama a atenção uma tela a óleo, pintada por Franco de Sá, na qual Prudente é retratado em tamanho natural.

Canudos. O museu reserva uma sala para “reflexão” sobre a Guerra de Canudos, conflito armado ocorrido durante o governo de Prudente. Estão dispostas reproduções de fotos dos combates, uma delas mostrando o cadáver de Antônio Conselheiro, que liderou os sertanejos de Canudos contra as forças federais. As imagens são do Museu da República do Rio de Janeiro e os textos, do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. Um exemplar original da segunda edição do livro faz parte do acervo.

Uma charge a cores dos artistas Andrei Bressan e Marcelo Maiolo mostra o atentado sofrido por Prudente de Morais em novembro de 1897, na comemoração da vitória do Exército contra os revoltosos de Canudos. O presidente recebia as tropas que retornavam da batalha no Arsenal de Guerra, no Rio, quando foi atacado por Marcellino Bispo de Mello. Prudente escapou ileso, mas seu ministro de Guerra, Marechal Bittencourt, faleceu defendendo a vida do presidente. Marcellino foi preso e teria se enforcado na cadeia usando um lençol.

Um dos destaques da casa, o quarto onde Prudente de Morais deu o último suspiro, em 3 de dezembro de 1902, é um ambiente sóbrio. Após deixar a Presidência, em novembro de 1898, Prudente retornou para Piracicaba e foi recebido com festa. Beraldo conta que a saúde de Prudente de Morais estava abalada, o que o obrigou a se afastar do mandato para a retirada cirúrgica de cálculos da bexiga. Já em Piracicaba, em 1901, ele foi diagnosticado com tuberculose. O sobrinho médico, Paulo de Morais Barros, cuidou dele até o fim. Nos instantes finais, Prudente tinha dificuldade com a respiração e pedia: “Mais ar, Paulo! ... Mais ar!” – a frase está estampada em um cartaz, no quarto em que morreu, no dia 3 de dezembro de 1902.

Prudente de Morais também é lembrado em Piracicaba por ter incentivado, juntamente com o irmão Manoel, a criação do Colégio Piracicabano, até hoje uma das principais instituições de ensino da cidade. Os irmãos queriam criar na cidade uma escola nos moldes das norte-americanas. Com o apoio político dos irmãos, a missionária americana Martha Watts abriu as portas da escola metodista em 1881. Logo após a Proclamação da República, Prudente de Morais foi nomeado governador de São Paulo e implantou a reforma do ensino público, tendo como modelo o sistema de ensino do Colégio Piracicabano.

 

MUSEU HISTÓRICO E PEDAGÓGICO PRUDENTE DE MORAES – PIRACICABA

Rua Santo Antonio, 641, centro F.: 19-3422.3069

Aberto de terça a sexta, das 9 às 17, sábados e feriados, das 9 às 14 horas.

Entrada gratuita

 

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