"Pílula do dia seguinte" não induz a comportamento de risco

Pesquisa realizada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com 200 homossexuais cariocas revelou que, ao contrário das expectativas dos médicos, a "pílula do dia seguinte" para evitar a aids não induz a um comportamento sexual mais perigoso ou ao abandono da camisinha. Realizado entre 1998 e 2001, o estudo é o primeiro feito no mundo para avaliar o impacto do uso de drogas para evitar a contaminação com o HIV, o vírus que causa a aids.A pesquisa poderá ser o primeiro passo para reduzir a resistência das autoridades médicas contra a pílula, já que até agora ela só é recomendada para profissionais de saúde que sofrem acidentes e, em alguns hospitais, para mulheres vítimas de violência sexual.Apesar de ser chamada de "pílula do dia seguinte", ela é, na verdade, um tratamento com dois antiretrovirais (AZT e 3TC) que começa no dia seguinte à noite de suposto risco e que pode continuar por mais 28 dias. O percentual de homens que admitiram ter alguma exposição a riscos caiu de 56%, no início do estudo, para 45% no fim do levantamento."Pela primeira vez mostramos que o medo que existia em relação à pílula pode não ter fundamento", afirma o professor-titular de infectologia da UFRJ, Mauro Schechter, coordenador do estudo e que vai apresentá-lo ainda este mês na Conferência Internacional de Aids que acontece em Buenos Aires.Outro resultado do estudo que pode ajudar ainda mais a mudar a imagem da "pílula" é sobre a eficácia. Dos 11 homens que contraíram o vírus nos cerca de três anos da pesquisa, apenas um deles não tinha usado os remédios. Apesar de positivo, esse resultado não pode ser usado como prova científica para dar aval ao tratamento porque o estudo não foi feito com esse objetivo. Mas, afirma Schechter, pode ser um indício positivo.Hoje, os médicos resistem a esse tratamento preventivo por dois motivos: eles têm medo que haja relaxamento no uso da camisinha e afirmam que não existem trabalhos científicos definitivos comprovando a eficácia, apenas indícios. Um deles é uma pesquisa norte-americana que mostrou que, nos casos onde os remédios eram usados no dia seguinte, a taxa de infecção era 80% menor.Por causa disso, o uso da "pílula" só não é contestado no caso dos profissionais de saúde, já que esse é um procedimento adotado no mundo todo. No caso de vítimas de estupro, por exemplo, alguns hospitais decidiram fazer o tratamento, mas sem a autorização do Ministério da Saúde. Em São Paulo e no Rio, ele é feito por iniciativa ou do próprio hospital ou da Secretaria de Saúde.O ministério resiste em transformar a "pílula" em rotina porque, sem evidência, não há como aprovar o financiamento de mais remédios para milhares de pessoas que podem estar vivendo situações de risco com o HIV diariamente e que ainda podem começar a preferir deixar a camisinha de lado para tomar os remédios no dia seguinte. "O ministério precisaria fazer um estudo para avaliar os benefícios e prejuízos na inclusão da pílula do dia seguinte", explica Schechter.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.