Piloto que evitou tragédia em 1988 é homenageado

Com 13 anos de atraso, o piloto Fernando Murilo de Lima e Silva, de 53 anos, foi homenageado pelo Sindicato Nacional dos Aeronautas. Ele comandava o vôo VP-375, da Vasp, seqüestrado, em 29 de setembro de 1988, pelo maranhense Raimundo Nonato da Conceição. Trabalhador da construção civil, desempregado, Nonato resolveu punir quem considerava "culpado", o presidente José Sarney, seu conterrâneo, lançando um Boeing 737-300 contra o Palácio do Planalto, e levando consigo outras 105 pessoas. Murilo, que evitou a tragédia, recebeu o troféu Destaque Aeronauta hoje, no Dia do Aviador. "Antes tarde do que nunca", disse o piloto, que na época foi condecorado pelo Ministério da Aeronáutica e pelo governo de Minas. "Acho que essa homenagem demorou para sair. Apesar da medalha da Aeronáutica, a aviação civil deveria ter feito isso há muito tempo", afirmou Alberto Antunes, integrante da nova diretoria do sindicato, que tomou posse na cerimônia. Antunes foi colega do homenageado na Vasp, e fazia parte da tripulação que entregou o avião aos cuidados de Murilo, em Cuiabá, no dia do seqüestro. A história é contada no livro Caixa Preta, de Ivan Sant´Anna. Armado com um revólver calibre 32, Nonato levou pânico ao VP-375. "Na última etapa do vôo, de Belo Horizonte para o Rio, ele começou a atirar dentro do avião. Primeiro acertou um comissário. Depois, arrombou a porta da cabine com vários tiros. Um quebrou a perna de um co-piloto. Outro co-piloto levou um tiro na cabeça e morreu", conta o comandante. O morto era Salvador Evangelista, 34, seu amigo. A perícia e o sangue-frio de Murilo foram impressionantes. Quase sem combustível, com um cadáver ao seu lado e uma arma apontada para a cabeça, ele executou duas manobras acrobáticas típicas de aviões de caça, e inéditas em um Boeing: um ?tonneau? e um parafuso. No tonneau, o avião gira sobre seu próprio eixo. No parafuso, a aeronave mergulha numa espiral descendente. A segunda neutralizou temporariamente o seqüestrador, permitindo um pouso em Goiânia, onde a Polícia Federal assumiria o controle da situação. Nonato levou três tiros, e morreu dias depois. No tiroteio, Murilo foi alvejado na perna. Oito anos depois do seqüestro, quando pilotava aviões DC-10 em vôos internacionais, o comandante se aposentou. "O (Wagner) Canhedo me obrigou. Queria enxugar o quadro de vôo. Fiquei um tempo parado, fui tentar fazer outras coisas fora da aviação", explica. Carioca da zona sul, ex-morador de Ipanema, Murilo, que aprendeu a pilotar na Força Aérea, hoje mora em Curitiba, dá aulas na Faculdade de Ciências Aeronáuticas da Universidade Tuiuti, no Paraná, e pilota um avião Sêneca, para quatro passageiros, da Escola Paranaense de Aviação. Em janeiro, sua mulher e os dois filhos, ainda em Petrópolis, região serrana do Rio, também se mudam. Ele se considera um herói? "Esses momentos são difíceis, cada um teria uma atitude. Eu dei sorte. Na situação em que estava, eu ia morrer mesmo. Então decidi morrer brigando", diz o aviador. No dia 11 de setembro, mês do seqüestro e do seu aniversário, viu uma história parecida se desenrolar nos EUA, com final trágico. "O que aconteceu em Nova York e Washington foi meio parecido. Os seqüestrador tinha a mesma intenção. Só que lá eram vários."

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