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Pilatos no Credo

Seria ótimo tanto para a presidente Dilma Rousseff quanto para o PSDB se as agruras do governo fossem realmente oriundas de ações da oposição oficial e partidariamente constituída. 

Dora Kramer, O Estado de S. Paulo

08 de julho de 2015 | 05h00

Isso significaria que os tucanos estariam no exercício pleno da liderança política, convencendo as massas a se voltar injustamente contra um governo que, além de competente, cumpriria o prestimoso papel de zelar pelo dinheiro público e pelas melhores normas de conduta na administração do aparelho de Estado.

Conforme é de conhecimento da torcida da seleção brasileira de futebol, nada disso ocorre. O PSDB mal pode consigo; não se entende com as próprias ideias (vide a defesa do fim da reeleição) e visto de perto fica cada dia mais parecido com o PMDB (no mau sentido). Já o governo é a balbúrdia que se vê, aliás, muito bem traduzida em certos raciocínios desenvolvidos pela mulher sapiens que preside nossa República.

Crise para todos os lados, nenhuma delas obra da oposição, excluída aquela residente nos domínios ditos governistas. Dilma Rousseff acusa seus oponentes partidários de provocarem todo esse clima adverso porque evidentemente não pode acusar a si nem a seus correligionários. 

Muito menos está em condições de responsabilizar a sociedade, esta sim a real fonte de rejeição à presidente e companhia. Tão afeita aos números, ela dispõe dos 9% de aprovação apurados na última pesquisa do Ibope para que não se deixe enganar. Está bastante bem informada a respeito, apenas não lhe convém discorrer sobre causas e efeitos sob a ótica dos fatos verdadeiros. Neles, a oposição entra na história como Pilatos no Credo. 

Nenhum oposicionista, dos oficiais, teve o poder de síntese do ex-presidente Luiz Inácio da Silva ao praticamente criar um slogan para o momento que vivem o governo e o PT. Em duas palavras, volume morto, Lula disse tudo e mais um pouco. A confusão nas contas públicas não foi obra da oposição que tampouco pode ser responsabilizada pelas mentiras contadas durante a campanha eleitoral nem por aquelas tentativas de fazer o partido das raposas (PMDB) de bobinho.

De onde concluímos, por óbvio, que quem alimenta a crise é o governo. Agora mesmo, quando o PSDB faz da questão do impeachment o principal tema de um congresso sem assunto relevante e no dia seguinte a presidente convoca uma reunião para discutir tal hipótese, o Planalto abana o fogo do clima quente. 

Mesmo negando, o fato de a presidente dizer que defenderá seu mandato com “unhas e dentes” incorpora a agenda dos opositores que não é outra senão a de aprofundar o desgaste político. Um governante obrigado a declarar que não vai “cair” é um governante fragilizado, pois não?

O político sólido ignora o bombardeio quando não há motivação objetiva para a derrubada. Hoje não já para a interrupção do mandato da presidente. Existe um clima de insatisfação. Isso é uma coisa. Outra coisa muito diferente é o impedimento legal de um governante. E por mais que haja uma grita isso não basta. Não se depõe ninguém no grito.

Ou surgem condições objetivas para a mudança da regra na forma da Constituição ou, em outros termos, não há acordo com a democracia.

Quem sabe, sabe. Talhado para ser personagem de ponta na articulação política do segundo mandato da presidente Dilma, o homem que reformularia a composição da coalizão partidária, o ex-prefeito de São Paulo e ministro das Cidades, Gilberto Kassab, sumiu de cena.

Por sabedoria de que há a hora de falar e, sobretudo, hora de calar. Momento de avançar e a circunstância de recuar. Para não se queimar. 

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