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Piada no exterior

Vexames internacionais recomendam atenção ao discurso de Bolsonaro na ONU

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2019 | 07h34

Jair Bolsonaro diz que irá a Nova York para fazer o discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU nem que seja de maca ou de cadeira de rodas. Mais do que encarar o compromisso como um desafio físico, algo já delicado diante de sua recuperação de mais uma cirurgia na região do abdome, o presidente deveria ter em mente a importância simbólica da ocasião, e se preparar tecnicamente para ela, caso resolva mesmo ir a qualquer custo.

Bolsonaro chegará à ONU com os olhos do mundo voltados para o Brasil. E as razões para isso são, principalmente, decisões, ações, falas e comportamentos do presidente brasileiro e de expoentes de seu governo. O centro da geleia geral externa produzida pelo bolsonarismo nos últimos meses é a questão ambiental.

Foram as reações dele e de seus ministros ao aumento do desmatamento e das queimadas que chamaram a atenção de chefes de Estado, organismos internacionais e da sociedade global para a mistura tóxica de retórica ideológica nonsense, desprezo a dados e à ciência e a contraposição entre preservação ambiental e defesa de um desenvolvimento econômico extrativista da sua gestão.

Diante da fumaça composta de desaforos infantis e misóginos de Bolsonaro a outros governantes e da ausência de dados que desmintam o descontrole no aumento do desmate, a posição dos países desenvolvidos hoje em relação ao Brasil oscila entre o ceticismo, a ironia e o deboche puro e simples.

Foi emblemática a participação do chanceler Ernesto Araújo, um dos expoentes mais destacados da ala ideológica do governo, em evento na semana passada na Heritage Foundation, um centro de estudos conservador localizado em Washington. A mistura de negacionismo climático, crítica ao marxismo, críticas randômicas a pensadores de vertentes e épocas distintas e vitimismo de quem deveria governar deixou estupefatos representantes da direita norte-americana, a qual a prima brasileira tenta mimetizar, mas da qual só consegue ser uma versão-paródia.

Araújo disse que a esquerda usou a defesa da justiça social para legitimar ditaduras ao redor do mundo, e, num salto extraordinário, afirmou que se caminha para fazer o mesmo com a questão climática.

No Twitter, o analista de política externa do The Washington Post Ishaan Tharoor expôs sem misericórdia o ridículo da situação. “Este é um fascinante discurso ideológico de um ministro das Relações Exteriores no exterior (e um tanto incoerente). Nossa civilização está perdendo seus símbolos, diz ele”, narrou o jornalista norte-americano, parecendo se divertir com o exotismo do palestrante.

Ele ainda anotou, com razão, que esse arremedo de doutrina nada tem a ver com o conservadorismo norte-americano, ou com o que a direita dos Estados Unidos promove como política de Estado. Ou seja: ao beber em fontes como Olavo de Carvalho e Steve Bannon – dupla com a qual Araújo se encontrou na mesma viagem –, a política externa de Bolsonaro se afasta da doutrina, da tradição e do acúmulo pragmático da diplomacia brasileira, para erigir em seu lugar um edifício que não para em pé nem aos olhos de seu parceiro preferencial.

Se for esta a base para o discurso de Bolsonaro na ONU é desnecessário dizer que o resultado será um vexame internacional sem precedentes – e olha que Dilma Rousseff já discursou neste mesmo fórum. É urgente que entrem em cena os técnicos do Itamaraty e dos Ministérios da Economia e da Agricultura para produzir uma peça que, sem delírios grandiosos e ideologia rastaquera, tente desfazer a impressão de que o Brasil trata com descaso a questão ambiental e promove retrocessos na nossa exitosa transformação do agronegócio num exemplo de eficiência.

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