PFL planeja independência do PSDB e candidaturas próprias

Em uma conjuntura de avanço das forças de esquerda e nacionalistas no Brasil e na América Latina, o PFL decidiu apostar em uma carreira solo para marcar claramente suas propostas liberais na economia e na política. O objetivo do partido é deixar de ser coadjuvante do PSDB, legenda da qual foi aliado formal nos últimos 12 anos, tanto no governo como na oposição. "Estamos fazendo nosso próprio caminho, pela liberdade de mercado e pelos direitos individuais. O espaço da esquerda já está bem ocupado pelo PT e PSDB", disse à Reuters o deputado Alceni Guerra (PFL-PR), secretário-geral da Fundação Liberdade e Cidadania, matriz ideológica do PFL. "É um investimento no futuro, no momento em que a América Latina é subjugada por governos populistas", acrescentou, citando apenas o México como exemplo de país da região afinado com as idéias do "centro democrático". O partido começa a "nova fase" mudando de nome. Deve passar a se chamar Partido Democrata (PD). Na próxima quinta-feira, a executiva da legenda discute o calendário das mudanças, que têm de ser aprovadas em convenção nacional. O distanciamento em relação aos tucanos deve se manifestar já nas eleições municipais de 2008. A proposta é estimular o lançamento de candidaturas próprias para todas as prefeituras sem priorizar as alianças com o PSDB. Será um ensaio para uma sonhada candidatura própria ao Palácio do Planalto, em 2010. Para marcar o discurso liberal e antiestatizante do "novo PFL", o deputado Paulo Bornhausen (SC) estreou na tribuna nesta segunda-feira lançando a frente nacional contra a CPMF, criada há 10 anos no primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. "O governo só vai praticar austeridade fiscal quando tomar um choque de receita. A verdadeira reforma fiscal é cortar despesas", disse Paulo Bornhausen. Nascido com o nome de Frente Liberal, em 1984, como dissidência do antigo PDS, o PFL participou nos 18 anos seguintes dos governos José Sarney (PMDB), Fernando Collor (PRN), Itamar Franco (Sem partido) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Em 2005, o PFL comemorou seus 20 anos com outro ensaio de refundação do partido, que não passou no teste das eleições do ano passado. Desde 1998, a legenda vem perdendo espaço na Câmara. Nas eleições de 2004, caiu de 1.200 para 800 prefeituras. Sua força reside hoje no Senado, com 17 cadeiras, 11 delas remanescentes da última eleição no governo tucano. Crise conjugal A convivência entre tucanos e liberais começou a desandar em 2002, quando José Serra (PSDB) impôs sua candidatura sobre o projeto do PFL de lançar Roseana Sarney, então no PFL, à Presidência da República. Lula venceu. Já na oposição, divergiram sobre a proposta de impeachment do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No auge da crise do mensalão, em agosto de 2005, o PFL defendeu a idéia, mas os tucanos preferiram a estratégia de "sangrar" o governo e o PT. Lula venceu de novo. Nas eleições do ano passado, o PFL sofreu sua maior derrota. Perdeu a disputa em todos os governos do Nordeste, elegendo somente o governador do Distrito Federal, enquanto o PSDB conseguiu manter Minas Gerais e São Paulo. A crise conjugal ficou mais evidente na campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) à presidência da República. "Nosso candidato não teve coragem de defender as privatizações bem sucedidas do nosso próprio governo", argumentou Paulo Bornhausen. Na recente disputa pelo comando da Câmara, o PFL acusou o PSDB de ter traído o compromisso com a oposição, por ter ajudado o PT a eleger Arlindo Chinaglia (PT-SP). "A proximidade do PSDB com o PT nos deixou de cabelo em pé", afirmou Alceni Guerra. Segundo o deputado e ex-ministro da Saúde, o único obstáculo para um rompimento definitivo com os tucanos é a boa relação entre o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PFL), e o governador José Serra, de quem o pefelista herdou o cargo. Segunda geração O presidente do PFL, Jorge Bornhausen (SC), quer transferir o comando da sigla para os "jovens do partido", filhos de caciques fundadores ainda no controle. "Cumprimos um trajeto histórico. Rompemos o regime militar e construímos um partido nacional de Norte a Sul. O passo seguinte do novo partido é prestigiar os novos líderes", disse Bornhausen num encontro recente com outros dirigentes do partido. Na segunda geração, além de Paulo Bornhausen, destacam-se os deputados Rodrigo Maia (RJ), filho do prefeito do Rio, Cesar Maia; Efraim Filho, filho do senador Efraim Morais (PB), Fernando Maia (RN), filho do líder do PFL no Senado, José Agripino; e Antônio Carlos Magalhães Neto (BA), este da terceira geração.

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