PF vê corrida de políticos para ''lavar'' doações

Recibos foram entregues ?em cima da hora? à Justiça Eleitoral para provar correção de repasses

Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

30 de julho de 2009 | 00h00

Os investigadores da Operação Castelo de Areia identificaram "grande volume" de recibos correspondentes a doações eleitorais realizadas pela construtora Camargo Corrêa - alvo maior de investigação sobre suposto esquema de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Os recibos foram entregues "em cima da hora" à Justiça Eleitoral, segundo verificação preliminar da Polícia Federal, como forma de comprovar a tempo a idoneidade de repasses da Camargo Corrêa que financiaram campanhas de vereadores, deputados e senadores de pelo menos oito legendas.A PF constatou que houve uma corrida de políticos e partidos nos últimos dias do prazo legal previsto para entrega da prestação de contas que incluem recibos com dados relativos a doações da construtora. Para a PF, essa providência praticamente elimina a possibilidade de enquadramento de políticos em crime eleitoral.A Castelo de Areia foi deflagrada no dia 25 de março - o prazo para apresentação dos relatórios com nomes de doadores e valores transferidos terminou no dia 30 de abril.Muitos políticos, por meio de seus advogados, apressaram-se em exibir cópias dos recibos à PF e à Justiça Federal.O repasse de verbas para políticos é o principal desdobramento da Castelo de Areia - a primeira etapa resultou em denúncia criminal contra quatro executivos da empreiteira, agora réus em ação penal perante a 6ª Vara Criminal Federal.Durante a investigação, que durou mais de um ano, interceptação telefônica autorizada judicialmente pegou dirigentes da Camargo Corrêa discutindo doações. Um deles citou "doações por fora". Essa nova fase do caso visa exclusivamente a verificar o aspecto eleitoral. Um investigador lamentou que a operação não tenha sido deflagrada "mais tarde" - depois do encerramento do prazo para apresentação dos recibos.COMPARAÇÃOA PF está finalizando a comparação entre as declarações submetidas à Justiça Eleitoral e os recibos encontrados quando da realização de buscas e apreensões. O resultado dessa apuração deverá ser encaminhado à Procuradoria da República até o fim de agosto. A expectativa é que, em princípio, não fique margem para eventual imputação de crime eleitoral. "Essa questão já está superada porque os recibos juntados aos autos mostram que as doações foram feitas de forma legal", declarou o criminalista Celso Vilardi, que defende três executivos da empreiteira. Segundo Vilardi, a constatação da PF "só confirma o que a empresa vem dizendo desde o início do caso".As implicações políticas da Castelo de Areia provocaram forte pressão de líderes no Congresso sobre a PF.O juiz Fausto Martin De Sanctis, que autorizou a operação, explicou, na ocasião, que o objetivo era identificar lavagem de dinheiro tendo como antecedentes crimes contra a administração pública e crimes financeiros, "perpetrados, em tese, mediante organização criminosa". De Sanctis anotou que a PF "encontrou indícios de superfaturamento em obras realizadas pela construtora e de doações não declaradas a partidos políticos".

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