PF tem provas de que incêndio na Unb foi criminoso

A Polícia Federal já tem provas de que foi criminoso o incêndio ateadoem três apartamentos habitados por alunos africanos na Casa doEstudante Universitário (Ceu), da Universidade de Brasília (UnB), namadrugada da última quarta-feira. O reitor classificou a ação de "atentado". Os primeiros indícios apontam para racismo e xenofobismo (preconceito contra estrangeiros) e já há dois suspeitos, provavelmente alunos brasileiros da mesma universidade, que foram vistos no local momentos antes do incêndio. No momento em que as portas dos apartamentos foram incendiadas, haviadez estudantes africanos dormindo. Os criminosos colocaram tijolos emvolta das portas para dificultar a fuga e esvaziaram extintores, numaevidência de que o crime foi premeditado. A seguir, jogaram combustível nas portas e atearam fogo. Dos extintores e da garrafa plástica, encontrada parcialmente preservada do lado de fora do imóvel, foram recolhidas impressões digitais, que estão sendo analisadas pela perícia técnica da PF. Ninguém se feriu por sorte, mas houve muito pânico.Os depoimentos de oito testemunhas e dos primeiros suspeitos serãotomados nesta sexta-feira. O crime chocou os meios políticos e a comunidadeUniversitária. Providências Uma comissão de representantes do Congresso, da Secretaria Especial de Política de Proteção Racial (Seppir) e de órgãos de combate ao racismo reuniu-se nesta quinta-feira com o reitor da UnB, Timothy Mulholland, para cobrar providências. Estiveram presentes ao encontro o ex-reitor da UnB, senador Cristovam Buarque (PDT-DF) e o deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara e ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE).Mulholland anunciou punição exemplar para os autores do crime, que serão expulsos se forem alunos e uma série de medidas para conter o xenofobismo e o racismo na instituição, pioneira na implantação de cotas raciais para negros em seus cursos. A UnB decretou o dia 28 de março como dia da igualdade racial para lembrar a data da agressão.Mediante acordos internacionais, a UnB tem cerca de 400 estudantes estrangeiros, dos quais 23 vivem na Céu. Entre esses, 20 são oriundosde países africanos.ProvocaçõesAntes do incêndio, a comunidade africana já vinha sendo provocada comfrases xenófobas pintadas nos muros da universidade, hostilidades e atébrigas. As portas dos apartamentos incendiadas haviam sido pintadas comcruzes vermelhas e o símbolo da organização racista norte-americana Ku Klux Klan (KKK). O reitor informou que tomou conhecimento de uma escaramuça entre brasileiros e africanos há seis meses mas não imaginou que a situação fosse chegar a esse ponto. As principais testemunhas, Luis Melo Co e Adilton Fernandes Indi,ambos oriundos da Guiné-Bissau, moradores dos apartamentos 106 e 112,fizeram um relato dramático do atentado. Na representação entregue à Seppir, à PF e ao Itamaraty e demais autoridades, eles dizem que os africanos residentes foram vítimas de violeta tentativa de homicídio e pedem "garantias mínimas" de vida ao Estado brasileiro. Relatam também que as hostilidades são antigas e relatam que, além das frasespichadas, desconhecidos haviam jogados pedras nos imóveis. Um dos trechos da representação, à qual o Estado teve acesso, faz oseguinte relato:Atearam fogo às portas dos nossos apartamentos covardemente enquantodormíamos, não tivemos chance de defesa e por pouco uma tragédia demaiores proporções não aconteceu. Tivemos que saltar pela janela echamar os seguranças para tentar controlar o fogo. Nossas companheiras do apartamento 207 do segundo piso, que também foram alvo da violência injustificável, quase se lançaram pela janela. Curiosamente osextintores estavam todos esvaziados.

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