PF também investigou OAS e monitorou presidente do Bradesco

Agentes tinham informante na empreiteira; telefonemas entre banqueiro e doleiro foram interceptados

Fausto Macedo e Marcelo Godoy, de O Estado de S.Paulo,

28 de março de 2009 | 23h04

No rastro do doleiro Kurt Paul Pickel, apontado como articulador de suposto esquema de fraudes em licitações, obras públicas superfaturadas e evasão de divisas, a Polícia Federal investigou, além da Camargo Corrêa, uma segunda empreiteira, a OAS. A PF monitorou ainda contatos do doleiro com Lázaro de Mello Brandão, presidente do Conselho de Administração do Bradesco.

 

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Durante dois meses, houve escuta telefônica em seis linhas de um funcionário da empreiteira. O setor de inteligência da PF usou até um informante infiltrado na OAS em busca de indícios de lavagem de dinheiro. Além de interceptar telefonemas entre Lázaro Brandão e Pickel, a PF seguiu um motorista do banqueiro até a casa do doleiro, preso por ordem judicial na última quarta-feira.

 

As investigações fizeram parte da Operação Castelo de Areia, desencadeada em 10 de janeiro de 2008, cujo alvo principal era Kurt Pickel. O monitoramento identificou os passos do doleiro. Em 25 de setembro de 2008, ele foi fotografado pelos agentes entrando na sede da Camargo Corrêa, em São Paulo.

 

Na quarta-feira, a empreiteira teve quatro de seus diretores presos sob suspeita de envolvimento em remessas ilegais para paraísos fiscais e lavagem de recursos ilícitos. Após recurso à Justiça, os executivos e o doleiro foram libertados ontem (leia na pág. A6).

 

Relatório de inteligência da PF mostra que, numa etapa da Castelo de Areia, um dos alvos da investigação foi a OAS, que teve faturamento de R$ 1 bilhão em 2008. O alvo dos federais era Joilson Santos Goes, identificado como funcionário da empreiteira.

 

No documento assinado pelo delegado Otávio Margonari Russo e enviado ao juiz Márcio Millani, da 6ª. Vara Criminal Federal de São Paulo, a PF dizia que, "com a evolução das investigações", os federais haviam conseguido "angariar um informante dentro da própria OAS". Por meio dele, os agentes identificaram Goes. "Acreditamos ter identificado a pessoa apontada pelo denunciante anônimo como sendo o responsável por articular o esquema de lavagem de dinheiro dentro da construtora OAS, esquema esse supostamente operacionalizado por Kurt Pickel, alvo desta Operação Castelo de Areia".

 

Analisando o relatório do delegado, o juiz escreveu que Góes "manteria relacionamento com Kurt (Pickel), os quais estariam, em tese, perpetrando crimes afetos a esta Vara Especializada em Crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e em ‘lavagem’ de valores". Com essas palavras, o juiz Márcio Millani deferiu o pedido da Polícia Federal de interceptação telefônica em 25 de julho de 2008.

 

Cinco linhas telefônicas em nome de Goes foram grampeadas, além de uma linha fixa em nome da construtora. A interceptação foi prorrogada em julho. Em agosto, o delegado Russo fez novo relatório à Justiça, informando que a maioria dos números de Goes eram usados por parentes e não tinham interesse para a investigação.

 

Apenas um telefone celular continuou grampeado. O monitoramento acabou encerrado no dia 1º de setembro, por ordem do juiz Fausto Martins De Sanctis, da 6ª Vara Federal, pois nada de suspeito havia sido encontrado sobre Goes.

 

Apesar de não achar provas envolvendo a empreiteira, os relatórios da Justiça continuaram a citar suspeitas sobre a OAS até dezembro de 2008. Só depois de 1.700 páginas de inquérito é que a empreiteira deixou de ser citada. Não há evidências de que a investigação sobre a OAS tenha prosseguido em oseparado em utro inquérito.

 

A construtora recebeu R$ 150 milhões do governo federal em 2008. No mesmo ano, foi a empreiteira que mais recursos doou para campanhas eleitorais - R$ 12,3 milhões.

 

(Colaborou Eugência Lopes)

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