André Dusek
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Empresário ligado ao PT tentou ocultar ser dono de avião, aponta investigação

Benedito Rodrigues, o Bené, colaborador de campanhas petistas, disse, ao ser detido no ano passado com R$ 113 mil, que aeronave apreendida pela Polícia Federal pertencia a um amigo; seu advogado agora afirma que ele é sócio da empresa proprietária

TALITA FERNANDES, DANIEL CARVALHO E FAUSTO MACEDO, O Estado de S. Paulo

30 de maio de 2015 | 21h41

Atualizado em 01.06

BRASÍLIA e SÃO PAULO - Investigação da Polícia Federal mostra que o empresário Benedito Rodrigues de Oliveira Neto, o Bené, tentou ocultar ser dono do avião apreendido no âmbito da Operação Acrônimo, destinada a apurar esquema de lavagem de dinheiro por meio de contratos com o poder público. 

Bené disse, ao ser detido em outubro, que a aeronave pertencia a um amigo e ele arcava apenas com os custos de combustível. Preso na sexta-feira, no entanto, ele confessou ser sócio da empresa proprietária do avião, segundo seu advogado, Celso Lemos. Bené é tido pela PF como o “operador” da organização criminosa investigada e é próximo a Fernando Pimentel (PT), governador de Minas Gerais. As empresas Gráfica Brasil e Due Promoções e Eventos, controladas por Bené e familiares, faturaram, entre 2004 e 2015, R$ 525 milhões, a maior parte por meio de contratos firmados com o governo federal, segundo a investigação. 

 

A apuração da PF foi iniciada em outubro do ano passado, quando a Polícia Federal abordou o bimotor turboélice de prefixo PR-PEG na pista do aeroporto internacional Juscelino Kubitschek, em Brasília, após receber denúncias anônimas de que o voo continha malas de dinheiro. Bené e outros colaboradores da campanha de Pimentel foram detidos com R$ 113 mil.

Ao prestar depoimento, o empresário foi questionado sobre a propriedade do avião e negou ser o dono: “(Disse) Que o avião King Air, prefixo PR-PEG, em que o declarante (Bené) estava é de propriedade da empresa Bridge Participações, cujo diretor Ricardo Santos é seu amigo pessoal, que, em algumas ocasiões, Ricardo Santos empresta o referido avião ao declarante e este apenas paga o combustível nas viagens”, relata documento da PF obtido pelo Estado.

Ao ser preso na sexta-feira, Bené mudou de versão e disse ser sócio da empresa proprietária do avião, segundo seu advogado, Celso Lemos. “O avião é de uma pessoa jurídica que pertence ao Benedito e está declarado isso no depoimento de sexta-feira, naquela prisão em flagrante. Ele disse e assinou embaixo”, afirmou o advogado. 

De acordo com Lemos, Bené declarou no depoimento “que o avião modelo King Air C90 de prefixo PR-PEG é de propriedade da empresa Bridge Participações, cujos sócios são o próprio conduzido (Bené) e uma pessoa jurídica da qual o conduzido é sócio”. Nos registros da Receita Federal, no entanto, apenas os irmãos Alexandre e Ricardo Santos aparecem como sócios da Bridge Participações S.A., cujo capital social é de R$ 2.000.

De acordo com a defesa de Bené, o empresário não estava acompanhado de advogado e passou por constrangimento na detenção ocorrida no ano passado e, por isso, não falou ser dono da aeronave. “Ele não falou por causa do constrangimento daquela prisão e Benedito estava desassistido de advogado. As pessoas esquecem até detalhes como o signo.”

Mensagens. A PF já suspeitava que Bené era o dono do avião ao analisar troca de mensagens em telefones celulares apreendidos no ano passado. Um desses casos é uma conversa via SMS entre Bené e Gentil Martins Dias, sócio de Bené em uma empresa de vinhos. Na conversa, Bené pergunta se a empresa de Gentil fica nos Estados Unidos, que responde que não. “Tem como eu colocar o avião no nome dela (empresa do sócio) para que ela exporte para mim no Brasil?”, pergunta Bené, que recebe como resposta que Gentil “tem uma fundação nos EUA” e que “vai ver com o pessoal”.

Outra troca de mensagens ocorreu em 2013, em que um interlocutor chamado “Sidão” pergunta se o “benets fly” - como era chamado o avião em referência a Bené como proprietário, segundo a polícia - está disponível. As conversas mostram que estavam sendo feitas negociações de aluguel da aeronave. 

Com base na análise das mensagens, a PF concluiu que “tal negócio pode ter ocultado a transferência da propriedade do avião, comprado nos EUA em nome da Lumine Editora, e registrado no Brasil em nome da Bridge Participações.”

Acrônimo. O nome da operação da PF é uma referência ao fato de que o prefixo da aeronave PEG é uma sigla formada pelas iniciais dos nomes de familiares de Benedito Rodrigues. 

O deputado federal Gabriel Guimarães (PT-MG) e seu pai, o ex-deputado Virgílio Guimarães, viajaram no mesmo avião na véspera da ação da PF, de acordo com a Folha de S.Paulo. Ao jornal, o deputado confirmou a viagem. Virgílio e Gabriel são aliados de Pimentel. Na sexta-feira, a polícia vasculhou um apartamento do ex-deputado e a casa em que um dos filhos dele mora. Virgílio foi quem introduziu Bené nos círculos petistas.

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