PF retorna ao El Tranvía, palco da Satiagraha

Restaurante uruguaio em São Paulo é suspeito de abrigar cúpula de organização de doleiros

Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

A Polícia Federal voltou à cena crucial da Operação Satiagraha - o restaurante El Tranvía, onde supostos emissários de Daniel Dantas teriam tentado subornar um delegado, em 2008, para livrar o banqueiro do Oportunity do inquérito sobre evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Churrascaria típica uruguaia, El Tranvía, agora, é alvo da Operação Harina, da PF, que investiga os passos de seis células interligadas de doleiros suspeitos de remessas de valores para paraísos fiscais. Há duas semanas, a PF prendeu 17 investigados. Outros dois escaparam porque haviam se deslocado para Montevidéu: Ricardo José Fontana Allende e Jacques Leiderman.

Situado na rua Conselheiro Brotero, em Santa Cecília, região central de São Paulo, o restaurante seria um abrigo da cúpula da organização, segundo relatório de inteligência da PF. "Existem fortes indícios de que o El Tranvía seja de propriedade do grupo investigado", assinala o delegado Alexsander Castro de Oliveira, em documento de 258 páginas que detalham os movimentos do grupo e contêm cerca de uma centena de transcrições de interceptação telefônica autorizada judicialmente. "É possível que o estabelecimento esteja sendo utilizado para lavar dinheiro sujo obtido pela quadrilha no Brasil."

O El Tranvía, consultado quatro vezes pelo Estado, não se manifestou.

A PF sustenta que a organização tem "ingerência no poder estatal" e "mescla atividades lícitas e ilícitas para dificultar a atuação dos órgãos públicos encarregados da persecução penal". Características do grupo apontadas pela PF: hierarquia, planejamento empresarial e divisão de trabalhos. "Será possível concluir que essas células enquadram-se na definição de grupo criminoso organizado estabelecida pela Convenção das Nações Unidas", acentua Alexsander Castro.

Allende é responsável pela Expo Brasil Passagens e Turismo, "que pode estar sendo utilizada como fachada pela quadrilha para liquidar as operações clandestinas de câmbio e cabo". A Expo tem autorização do Banco Central. "Mas as investigações demonstraram que o grupo opera também à margem do sistema financeiro, valendo-se de operações de dólar-cabo."

"O grupo é capitaneado por Allende", diz a PF. Ele é dono de offshore no Uruguai, a Câmbio Europa. "Age com muita cautela. Quando o assunto versa sobre operações financeiras deixa os negócios para os encarregados pelo fechamento."

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