Denise Havier
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PF prende ‘faxinado’ dos Transportes

Ex-presidente de estatal ferroviária, Juquinha é suspeito de corrupção; defesa classifica ação como arbitrária e afirma que vai recorrer

Fábio Fabrini, de O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2012 | 23h04

A Polícia Federal prendeu nesta quinta-feira, 5, o ex-presidente da Valec Engenharia, Construções e Ferrovias, José Francisco das Neves, o Juquinha, acusado de ocultar e dissimular bens supostamente obtidos por meio de corrupção. Na Operação Trem Pagador, desencadeada em Goiânia, também foram presos suspeitos de ligação com o esquema a mulher, um filho e um sócio de Juquinha.

A Valec é a estatal que cuida de obras como a Ferrovia Norte-Sul. Juquinha dirigiu a estatal em todo o governo Lula e foi afastado do cargo em julho, na "faxina" da presidente Dilma Rousseff.

Juquinha é investigado por inflar custos da Norte-Sul em Goiás e no Tocantins, beneficiando empreiteiras. Perícias da PF apontaram sobrepreço e superfaturamento superiores a R$ 100 milhões. Ao fazer o levantamento de bens do ex-dirigente para eventual ressarcimento de prejuízos, o Ministério Público Federal (MPF) em Goiânia descobriu um patrimônio em nome dele, de parentes e de laranjas, estimado em R$ 60 milhões.

Além das prisões, a Justiça autorizou o sequestro de bens e bloqueou contas. A fortuna inclui oito fazendas, uma delas avaliada em R$ 8 milhões, apartamento, terrenos e casas em condomínios fechados. Segundo a PF, a fortuna é incompatível com a renda de servidor público.

"Na Valec, ele ganhava de R$ 13 mil a R$ 20 mil. É um salário de alto escalão, mas que não deixa ninguém rico", afirmou o delegado da PF Eduardo Scherer. Quando se candidatou a deputado federal, em 1998, Juquinha declarou à Justiça Eleitoral patrimônio inferior a R$ 560 mil.

O procurador da República Hélio Telho explicou que os bens eram adquiridos em dinheiro ou por meio de empresas em nome de parentes e laranjas de Juquinha – algumas foram criadas só para administrar os bens. A quebra de sigilos bancário e fiscal mostrou que ele simulava empréstimos para justificar a transferência de patrimônio aos filhos, que tampouco tinham renda para obtê-lo. "O objetivo da operação é evitar que os bens desapareçam, para o futuro ressarcimento, e sufocar a organização economicamente", disse Telho.

Vizinhança. Atual presidente do PR em Goiás, Juquinha foi preso na manhã de quinta no condomínio Alphaville, em Goiânia, o mesmo em que a PF deteve em fevereiro o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

Juquinha, a mulher, Marivone Ferreira das Neves, o filho Jader Ferreira das Neves e o sócio Marcelo Araújo Cascão vão ficar detidos em Goiânia. Os mandados de prisão temporária expiram em cinco dias. Outras sete pessoas, entre elas mais dois filhos de Juquinha – Jales Ferreira das Neves e Karen Ferreira das Neves –, foram levadas à sede da PF para prestar esclarecimentos.

Foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão. Pela manhã, a PF vasculhou as salas da Assessoria de Controle na Valec. As servidoras Maria Emília da Costa Lamar e Marineide Pereira da Silva foram detidas temporariamente para depoimento. Elas são suspeitas de receber valores para preparar documentos que ajudassem Juquinha em suas defesas no Tribunal de Contas da União (TCU), mesmo após seu afastamento da estatal. Há indícios de que alguns papéis foram preparados para regularizar aditivos contratuais.

O advogado de Juquinha, Heli Dourado, classificou a prisão como arbitrária, alegando que seu cliente tem colaborado com as investigações. Ele vai pedir um habeas corpus. Dourado conversou com Juquinha por telefone e o descreveu como "muito abalado". "A única expressão dele foi: ‘Me tire daqui, senão vou morrer’." O PR não comentou o caso.

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