PF prende 10 suspeitos por ''cobrar pedágio'' no BNDES

Ricardo Tosto, indicado pela Força Sindical para conselho, foi grampeado pela corporação

Fausto Macedo e Rodrigo Pereira, O Estadao de S.Paulo

25 de abril de 2008 | 00h00

A Polícia Federal deflagrou ontem a Operação Santa Tereza e prendeu 10 empresários, advogados e servidores públicos que estariam envolvidos em um esquema de desvio de verbas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Dois financiamentos sob suspeita foram autorizados e liberados no início do ano - um no valor de R$ 130 milhões, outro de R$ 220 milhões, dinheiro que teria sido repassado para a Prefeitura de Praia Grande (SP) e para o caixa de uma loja de rede varejista.A maioria dos alvos da Santa Tereza teria ligações com a Força Sindical, mas a PF descartou a hipótese de motivação política na investigação. ''Não confundam questão política com a Polícia Federal, que nunca se prestaria a fazer um trabalho político'', ressaltou o superintendente regional Jaber Saadi. ''A PF nunca faria uma apuração para ser usada politicamente. Que isso fique bem claro.''Ricardo Tosto, advogado tributarista e empresarial, foi capturado às 6 horas no condomínio onde reside, no Morumbi. Há cerca de 5 meses ele assumiu cadeira no Conselho de Administração do BNDES, por indicação da Força. Tosto é advogado e amigo do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho, presidente da Força Sindical.A PF vasculhou 18 endereços de suspeitos e recolheu cerca de R$ 1 milhão em dinheiro, carros de luxo, documentos. Na casa de um deles foram recolhidos US$ 220 mil. As buscas e as prisões, em caráter temporário por 5 dias, foram ordenadas pela 2ª Vara Federal.Segundo a PF, 4% do montante financiado pelo BNDES era desviado para divisão entre os integrantes da suposta organização criminosa. Pelo menos 200 projetos com dinheiro público, sob análise dos federais, estariam no ponto para ser aprovados. Eles se referem a contratos de obras de prefeituras dos Estados de São Paulo, Rio, Paraíba e Rio Grande do Norte. ''Os investigados usam de influências políticas em Brasília para conseguir a liberação dos empréstimos'', disse o delegado Rodrigo Levin, que coordenou a Operação Santa Tereza.PROSTITUIÇÃOA PF informou que a apuração sobre desfalques no BNDES teve início casualmente, quando estava em curso inquérito sobre tráfico de drogas, prostituição e tráfico internacional de mulheres. O centro da investigação é uma casa noturna na Bela Vista. ''Ali cuidavam do envio de meninas de programa para o exterior'', destacou Ricardo Saadi. ''Essa casa, com faturamento elevado, era utilizada para lavagem de dinheiro do BNDES. O prostíbulo somente se mantém em funcionamento porque seus proprietários oferecem vantagens ilícitas a autoridades e servidores públicos responsáveis pela fiscalização.''O primeiro alvo foi um empresário de Praia Grande. Segundo a PF, antes de abrir uma construtora, ele foi traficante de drogas. É um dos três sócios da casa noturna, cuja segurança era feita por um coronel da reserva da Polícia Militar, que foi preso.Os federais informaram que empresas interessadas em financiamentos do BNDES se aproximaram de um grupo com prestígio dentro do banco. ''Esse grupo indicava uma agência de consultoria para fazer o projeto que deveria ser apresentado ao banco para que obtivessem a liberação de verbas'', anotou Levin.A PF identificou notas fiscais frias de consultoria e ''evidências de licitações fraudulentas de obras em pelo menos duas prefeituras''.

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