PF pede quebra de sigilo de empresa de Mares Guia

Polícia investiga esquema de financiamento de campanha com desvio de recursos públicos

Vannildo Mendes e Sônia Filgueiras, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2024 | 00h00

A Polícia Federal pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) a quebra do sigilo bancário e fiscal da Samos Participações Ltda., holding do ministro de Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia, suspeito de ser um dos idealizadores e operadores do mensalão mineiro. A PF solicitou também o bloqueio de bens dos 36 políticos investigados no esquema de captação ilegal de recursos envolvendo a campanha pela reeleição ao governo de Minas do tucano Eduardo Azeredo, em 1998. O ministro nega envolvimento com o mensalão.Os pedidos da PF foram feitos no relatório final do inquérito, enviado em julho ao STF. Segundo a revista IstoÉ, em 2002, ano da criação da Samos, Mares Guia declarou receita de R$ 1,1 milhão - mas o Fisco descobriu movimentação de R$ 22 milhões pela Samos naquele ano.A Polícia Federal identificou dois manuscritos de Mares Guia referentes a repasses que teriam sido feitos a aliados da campanha de Azeredo. De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, o documento que a PF apreendeu revela que o ministro lançou R$ 500 mil para JM e R$ 1 milhão para HG, referências a Júnia Marise (PDT) e a Hélio Garcia (PTB), então candidatos ao Senado. Mares Guia explicou, por sua assessoria, que fez apenas projeções de gastos de campanha de Azeredo.A PF solicitou autorização do STF para a fase dois do inquérito, que consiste em interrogar cerca de 170 políticos mineiros, de 19 partidos, beneficiados com doações de caixa 2 em suas campanhas, feitas pela coligação de Azeredo. O relatório do delegado Luiz Flávio Zampronha classifica o mensalão mineiro como ''''uma complexa organização criminosa'''' montada para financiar candidaturas na eleição daquele ano. Ele sugere o indiciamento de um grupo por lavagem de dinheiro, peculato, quadrilha e corrupção ativa e passiva, além de crimes financeiros e eleitorais.Conforme a denúncia, o empresário Marcos Valério, acusado de ser o operador do esquema, tomava empréstimos milionários em bancos - especialmente o Rural -, que a seguir eram pagos com recursos desviados de empresas estatais mineiras. O dinheiro sairia das estatais por meio de campanhas publicitárias fictícias, patrocínios para eventos esportivos, como o Enduro Internacional da Independência, competições de motocross e corridas de bicicletas, além do superfaturamento de serviços e outras formas fraudulentas.Azeredo vai encabeçar a lista de políticos denunciados ao STF, como mentor e maior beneficiário do esquema. O mensalão mineiro é considerado embrião do mensalão petista, montado por Valério no governo Lula. O senador nega envolvimento e pede isonomia de tratamento com Lula, que não foi denunciado pelo Ministério Público no mensalão petista em 2006.A lista para fins de denúncia inclui os coordenadores da campanha de Azeredo, dirigentes de estatais mineiras e executivos de empreiteiras que tinham negócios com o governo e fizeram grandes doações sigilosas. A inclusão ou não de Mares Guia na denúncia ainda depende da análise de alguns documentos de defesa.PERÍCIA CONTÁBILSegundo o relatório da PF, a coligação de Azeredo, que tinha como vice o ex-deputado Clésio Andrade, do PFL (atual DEM), promoveu um derrame de dinheiro ilegal na campanha. A coligação só declarou à Justiça Eleitoral R$ 8,55 milhões, de um total de cerca de R$ 100 milhões arrecadados, boa parte através de desvio de dinheiro público.Do total gasto, conforme perícia contábil realizada pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), R$ 10,8 milhões foram doados a cerca de 170 candidatos de diversos partidos. O dinheiro do mensalão mineiro, segundo a perícia do INC, veio na maior parte dos cofres públicos de Minas, tanto da administração direta como indireta, sobretudo de cinco estatais: o Banco do Estado (Bemge) e as companhias de saneamento (Copasa), de mineração (Comig) e de energia (Cemig), além da Fundação Duprat de Segurança e Medicina do Trabalho. O restante teria sido doação clandestina de grandes empresas prestadoras de serviço do Estado.A Polícia Federal calcula que foram desviados das cinco estatais cerca de R$ 5 milhões.

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