PF ouvirá deputado citado em grampos

Presidente da Assembléia de AL é acusado de comandar esquema

Ricardo Rodrigues, MACEIÓ, O Estadao de S.Paulo

25 de fevereiro de 2008 | 00h00

Depois da divulgação, ontem, de gravações de conversas telefônicas sobre cobrança de "dinheiro roubado" entre políticos de Alagoas, a Polícia Federal ouvirá nos próximos dias o presidente afastado da Assembléia Legislativa do Estado, Antônio Albuquerque (DEM), apontado como líder do esquema. O escândalo veio à tona em dezembro, com a Operação Taturana.Dois irmãos do deputado e a secretária foram indiciados pela PF por envolvimento com desvios, dos cofres de Alagoas e da União, que chegariam a R$ 280 milhões. Nas últimas manifestações, Albuquerque vem negando qualquer irregularidade.Nos grampos (veja alguns trechos ao lado), feitos com autorização da Justiça, entre março e abril do ano passado, o ex-deputado estadual de Alagoas Gilberto Gonçalves (PMN) cobra do diretor de Recursos Humanos da Assembléia, Roberto Menezes, verba desviada. "Quero meu dinheiro, que é dinheiro de roubo, de corrupção", diz Gonçalves, exaltado. Os recursos seriam usados para pagar dívidas de campanha. As conversas foram reveladas ontem pelo jornal Folha de S. Paulo.Em outra gravação, o empresário José Martins Santos Filho discute com o deputado Nelito Gomes de Barros (PMN) a compra de três Ford Fusion - carro de luxo, a R$ 80 mil cada um -, que seriam pagos com dinheiro da Assembléia, para uso de membros da Mesa Diretora. Barros é segundo-secretário da Casa.Na conversa, o empresário comenta: "O Albuquerque disse que era para pegar uma para ele, um para você e um para o Amélio." Cícero Amélio, também filiado ao PMN, é o primeiro-secretário da Casa.INDICIAMENTOSO delegado Janderlyer Gomes da Silva, que preside o inquérito da PF sobre a Operação Taturana, confirmou ontem que as gravações estão entre as provas usadas para indiciar deputados estaduais. Dos 27 parlamentares de Alagoas, 12 já foram indiciados, incluindo 5 integrantes da Mesa Diretora."As gravações revelam conversas comprometedoras entre deputados, ex-deputados, políticos em campanha eleitoral, empresários, assessores parlamentares e funcionários da Assembléia", afirmou o presidente do Sindicato dos Policiais Federais de Alagoas (Sinpofal), Jorge Venerando.Segundo informou o delegado, trechos desses diálogos foram usados pelo Ministério Público Federal na representação criminal impetrada no Tribunal Regional Federal da 5ª Região, no Recife (PE)."Essa representação deflagrou a Operação Taturana, em dezembro de 2007", lembrou Venerando, que é um dos coordenadores do Movimento Social Contra a Criminalidade em Alagoas. Na semana passada, o grupo promoveu uma grande manifestação em Maceió para exigir a cassação dos deputados envolvidos no escândalo.?MÁFIA?O inquérito sobre o caso ainda não foi concluído, mas a PF já indiciou mais de 80 pessoas acusadas de participação nos desvios. Segundo Venerando, "as gravações revelam políticos pedindo dinheiro à máfia da Assembléia para campanha eleitoral nas eleições de 2006 e ex-deputados desesperados cobrando dinheiro para cobrir despesas com a campanha em que foram derrotados, como foi o caso de Gonçalves"."Enfim, há gravações muito mais comprometedoras, mas que estão sendo preservadas para não prejudicar as investigações", afirmou o delegado.O Estado procurou ontem os deputados Albuquerque e Barros, o ex-deputado Gonçalves e o empresário Santos Filho, mas nenhum deles foi localizado. A Executiva Nacional do PMN, partido dos principais acusados, não retornou as ligações. COLABOROU MOACIR ASSUNÇÃOFRASESGilberto GonçalvesEx-deputado (PMN) "E eu quero meu dinheiro. Eu quero meu dinheiro certo. Que é dinheiro de roubo, de corrupção""Entendeu? Eu quero meu dinheiro. E não venha com desconto do INSS, porque é dinheiro roubado" "É melhor você me dar do que sair todo mundo algemado" Marcelo Martins SantosEmpresário"O Ford (Fusion) prata já está na revenda, completo""O Albuquerque (Antônio, presidente da Assembléia) disse que era para pegar uma para ele, um para você e outro para o (Cícero) Amélio""É. O preto dele já tá viajando e o prata tá na concessionária"

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.