PF não acreditava na invasão da fazenda

Os sem-terra decidiram, em duas assembléias e há alguns dias, a invasão da fazenda Córrego da Ponte, da família do presidente Fernando Henrique Cardoso, em Buritis (MG). Segundo fontes da Polícia Federal, ninguém, entretanto, acreditava que isso pudesse acontecer e, por isso, os serviços de inteligência do governo não foram acionados. "A ameaça existia, mas não acreditávamos que isso fosse tornar realidade", afirmou um delegado da PF, que esteve envolvido nas negociações com os sem-terra no ano passado. Segundo ele, nos últimos três anos o Movimento dos Sem-Terra (MST) fez diversas ameaças, nunca concretizadas. "Eles não passavam da porteira da fazenda." Por causa da negociação que estava sendo feita, o governo desprezou a informação obtida durante as assembléias, realizadas em Buritis. Apesar de estar à frente de todo o movimento, Cledson Mendes, conforme levantamento da PF, não é o principal líder da invasão da fazenda da família do presidente. Foram identificados como coordenadores da invasão dois sem-terra identificados apenas como Adriano e Jorjão, candidato a vereador pelo PT em 2000, que estão entre as 16 pessoas presas na Superintendência da PF em Brasília. Eles devem ser os primeiros a prestar depoimento, no final da tarde. PresosAs 16 pessoas presas na fazenda, e consideradas líderes do movimento, chegaram no final da manhã de ontem a Brasília, em um ônibus da própria PF. Todos estavam algemados com as mãos para trás. À frente do grupo estava uma garota de 13 anos, filha de um dos presos, identificado como Zéti. Ela não foi algemada. A operação da PF na fazenda foi decidida na noite de sábado. Enquanto os sem-terra estavam na sede da fazenda, cerca de 60 agentes do Comando de Operações Táticas (COT) e da Superintendência da PF, cercaram a propriedade, sem que os invasores percebessem. Desde a manhã, a porteira ficou bloqueada pelos policiais, que impediam a entrada de outros sem-terra. O Exército deu apoio logístico para a PF, já que não pode entrar em ação por não ser polícia judiciária. Durante a madrugada as negociações foram feitas pelo diretor-geral da PF, Agílio Monteiro Filho e os ministros da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira, do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso, e do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann. O intermediário de qualquer ação dentro da fazenda era o delegado Daniel Sampaio, chefe do COT, e especialista em gerenciamento de crises. ?Apenas cumprimos uma ordem judicial"Quando a negociação foi encerrada, a PF já tinha identificado quem seriam os principais líderes do movimento, que foram presos em seguida. "Não fizemos nada demais, apenas cumprimos uma ordem judicial", afirmou um policial que participou da operação, que contou com pelo menos 10 veículos e um ônibus da própria instituição. Além das prisões, a PF apreendeu três carros pertencentes aos sem-terra e diversos tambores de gasolina, além de centenas de colchonetes que foram levados para Brasília. Hoje mesmo, policiais começaram a fazer levantamentos sobre os bens apreendidos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.