PF liga lobista do caso BNDES a líder do PMDB

Henrique Eduardo Alves é o segundo parlamentar citado em apuração sobre desvios de verba no banco

Rodrigo Pereira e Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

28 de abril de 2008 | 00h00

No rastro do lobista João Pedro de Moura, amigo e ex-assessor do deputado Paulinho da Força (PDT-SP), a Operação Santa Tereza - que investiga suposto esquema de desvio de recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) - espreitou o líder do PMDB na Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Relatório de investigação da Polícia Federal identifica os passos de João Pedro em Brasília e revela que ele visitou o gabinete 539, do parlamentar, no dia 13 de fevereiro. A Santa Tereza não acusa o deputado de participar do esquema, mas o documento mostra que a PF agiu dentro da Câmara, quando espionou João Pedro, inclusive no instante em que ele deixou a sala de Alves. Os federais descreveram o lobista, que foi conselheiro do BNDES, carregando uma mochila, provavelmente a mesma que, segundo o monitoramento dos agentes federais, ele teria deixado no gabinete de Paulinho algumas horas antes. Capturado quinta-feira, quando a Santa Tereza foi deflagrada, João Pedro continua ocupando uma cela da custódia da PF de São Paulo. Ao sair da Câmara dos Deputados, João Pedro ainda recebeu ligação de outro integrante da quadrilha, o empresário Marcos Vieira Mantovani, e comemorou o resultado da visita a Brasília, segundo grampo feito pela PF. "Consegui todas as prefeituras do Rio de Janeiro, prefeituras do Estado da Paraíba e prefeituras do Estado do Rio Grande do Norte", disse João Pedro. Oito minutos depois ele retorna a ligação para Mantovani e reforça a mesma informação: "RJ, RN e Paraíba, todas as cidades que tiverem mais de 100 mil habitantes". De acordo com as investigações, a quadrilha já se preparava para fechar acordo com 200 prefeituras nesses Estados. Além do desvio de até 4% do valor do financiamento aprovado, a organização indicava a empresa que deveria elaborar o projeto a ser enviado ao BNDES e determinava a empreiteira ligada ao grupo que deveria ser contratada para executar as obras. Pelo menos três financiamentos aprovados pelo banco estatal, contratos que somam R$ 520 milhões para obras de saneamento e urbanização da Prefeitura de Praia Grande e para a expansão da rede Magazine Luiza, comprovariam a existência da fraude.Segundo a PF, de 2,5% a 4% de cada financiamento foi desviado para construtoras, consultorias e um prostíbulo na capital paulista ligados à organização. As duas empresas ficavam responsáveis por emitir notas frias, como sendo de serviços prestados, e o prostíbulo W.E. era usado para lavar o dinheiro e promover encontros. O monitoramento telefônico sobre João Pedro mostra que ele "utilizou sua parcela do desvio para comprar uma farmácia em sua cidade, São Sebastião da Grama". A PF afirma que ele utiliza o artifício "como forma de ocultação do dinheiro ilícito". No grampo, gravado às 18h58 do dia 16 de março, o lobista avisa sua mãe que vai colocar a farmácia que comprou no nome dela. "A justificativa que ele deu para sua mãe é que ele era servidor do BNDES (mentira) e não iria poder colocá-la em nome próprio", registra o relatório da PF, que obteve o contrato de compra e venda da farmácia na interceptação de um e-mail enviado a João Pedro.REUNIÕESEntre as visitas aos gabinetes de Paulinho e Alves, o lobista vai, sem a mochila, para um escritório em um bairro nobre de Brasília. Fica exatos 57 minutos no imóvel e volta para a Câmara. Participa de reuniões o restante do dia. Por um período, os agentes federais perdem o lobista e acionam o setor de inteligência da PF em São Paulo. Reencontram o pivô do esquema de desvio de dinheiro do BNDES deixando o gabinete de Alves, "levando uma mochila, a mesma que aquele trouxe consigo à Câmara dos Deputados às 9 horas da manhã", afirmam. A PF poupou os deputados por uma questão legal. Se incluíssem formalmente os parlamentares na investigação, a polícia tornaria nulo tudo o que Santa Tereza apurou, inclusive as provas colhidas sobre empréstimos irregulares concedidos pelo BNDES.

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