PF liga contratos publicitários da BrT a esquema do mensalão

Agências de Valério tinham conta da empresa, mas nada faziam ou entregavam material ruim

Roberto Almeida, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

A Polícia Federal está convencida de que as agências de publicidade DNA e SMP&B, de Marcos Valério, firmaram contratos sem concorrência no valor de R$ 50 milhões com a Brasil Telecom, e a verba foi desviada para alimentar o esquema do mensalão. O ex-presidente da BrT, Humberto Braz - condenado com o banqueiro Daniel Dantas por corrupção ativa - intermediou o negócio. A companhia, à época, estava sob comando do Opportunity.Documentos apreendidos pela Operação Satiagraha que estão sendo periciados por técnicos da PF revelam que tanto DNA como SMP&B "conquistaram" a conta de R$ 25 milhões ao ano, mais R$ 187,5 mil mensais, da Brasil Telecom sob a única justificativa de "proporcionar uma opção de qualidade e custo".De acordo com depoimentos colhidos pelos federais, o material publicitário produzido pelas agências de Valério não foi entregue ou tinha baixa qualidade, o que não justificava os valores contratuais.A relação entre Braz e Valério, considerada suspeita pela PF, é esmiuçada pelos agentes, que cruzaram as informações dos contratos e de outros documentos apreendidos, como a agenda de compromissos do ex-presidente da companhia.O resultado mostra que Braz se reuniu com Valério ou funcionários das agências pelo menos seis vezes entre abril e outubro de 2004. Naquele período, a conta publicitária da Brasil Telecom ainda era de outra agência, a Toró Propaganda.Apenas seis meses depois, em abril de 2005, a companhia dispensou a Toró e assinou com DNA e SMP&B. Os contratos foram firmados pela então presidente da companhia, Carla Cico, e por Luciano José Porto Fernandes, amigo de Humberto Braz, indicado por ele para o cargo de diretor de materiais e serviços. A celebração não contou com a anuência da diretoria de marketing da BrT.Em depoimento ao delegado federal Ricardo Saadi, que prossegue com as investigações da Satiagraha, Fernandes disse que foi contratado em julho de 2004, mas ficou em "stand by" até janeiro de 2005.Nesse período, recebeu o que ele considera um altíssimo salário para não fazer nada. Assim que efetivamente passou a trabalhar, Fernandes participou da assinatura dos contratos com as agências, os quais ele considerou "fora da rotina da companhia" porque "não passaram por procedimento licitatório".Valério está preso na penitenciária de Tremembé (SP) acusado em processo sobre corrupção ativa - teria participado de esquema de suborno de delegados federais para abertura de inquérito contra fiscais da Fazenda, conforme apurou a PF durante a Operação Avalanche.Braz e Dantas foram condenados na terça-feira a 7 anos e 10 anos de prisão, respectivamente, além de pagamento de multa pelo juiz Fausto De Sanctis, da 6ª Vara Federal. Eles recorrem em liberdade.?REQUENTADO?O Opportunity, que então geria a Brasil Telecom, não comentou a contratação das agências de Valério e indicou que a melhor pessoa a ser consultada seria o advogado de Braz, Renato de Moraes.Moraes tratou o assunto como "requentado". "A CPI avaliou a documentação, quase uma tonelada de papéis, e nenhum diretor ou o gesto foi envolvido no inquérito do mensalão", ressaltou.Sobre a contratação das agências de Valério por parte da BrT, Moraes sublinhou que "empresas privadas podem contratar prestadoras de serviço sem licitação". A respeito da agenda de Braz e das reuniões com Valério, Moraes anotou que a relação entre os dois era "estritamente profissional" e "a agenda reproduz exatamente a verdade". "Isso é reflexo da falta de acusação séria dessa nova fase da Satiagraha. Você começa a resgatar assuntos porque geram polêmica", disse.

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