PF investiga caixinha para partidos

Na Angraporto foram encontrados e-mails que se referiam a doações a campanhas municipais do PT e do PR

Marcelo Auler, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2004 | 00h00

Ao cumprir um mandado de busca e apreensão da Operação Águas Profundas, no dia 10 de julho, a Polícia Federal encontrou no escritório da empresa Angraporto, acusada de manipular licitações da Petrobrás, e-mails trocados entre seus sócios falando de um esquema de contribuições para campanhas políticas. Na correspondência, fica claro que a empresa estava sendo cobrada por diretores da Companhia Docas do Rio de Janeiro - administradora do porto de Angra dos Reis, cuja exploração comercial estava entregue à Angraporto - para fazer doações às campanhas municipais do PT e do então PL, hoje PR.Há referências também ao pedido de ajuda para a campanha a prefeito do Rio de Luiz Paulo Conde, indicado nesta semana para presidir Furnas Centrais Elétricas. O pedido de ajuda à campanha foi feito pelo ex-vice-presidente da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema), Ricardo Rotemberg, coordenador da campanha de Conde.Entre os presos na Operação Águas Profundas está a funcionária da Feema Ana Celeste Alves Bessa, acusada de intermediar licenças ambientais para a Angraporto. Ela era da equipe de Rotemberg, encarregado na época de conceder as licenças ambientais para empresas do interior do Estado.Nos e-mails, há indícios do esquema de contribuição política e de acertos com a diretoria da Companhia Docas. O presidente da empresa é o mesmo daquela época, Antônio Carlos Soares Lima, que chegou ao cargo indicado pelo deputado Carlos Santana (PT). Mas o nome de Soares Lima não aparece - são citados encontros com ele para discutir as contribuições.SEM PONTUAÇÃONominalmente foram citados os então diretores de Portos, Luiz Rafael de Oliveira Mussi, e da área financeira, Vilmar Valle. Os dois, que não estão mais na companhia, tinham sido indicados pelo então líder do PL na Câmara, Bispo Rodrigues, que renunciou em 2005, durante o escândalo do mensalão.Na primeira mensagem, de 15 de março de 2004, o então sócio da Angraporto, Arnaldo Araújo de Matos Filho - que depois brigou com os sócios e denunciou o esquema de fraude nas licitações da Petrobrás - faz menção aos acertos com a Companhia Docas e relata a conversa com alguém, que chamou de "figurão", sobre uma fatura. Os textos são repletos de erros de português e não têm nenhuma pontuação."Hoje trocou-se o ministro e ele (o figurão) acredita que na semana que vem deve-se trocar os diretores ele acha mais conveniente para nós fazermos o negócio logo uma vez que vindo novos diretores e fatalmente do PMDB deve ficar mais caro porque vão ser gente nova que entra enquanto o Valle e o Mussi no momento estão fracos e resolveriam com mais facilidade", diz esse primeiro e-mail. No dia 16 de março, tomou posse Alfredo Nascimento, do PL, no Ministério dos Transportes, ao qual a Companhia Docas estava subordinada. O mesmo Mattos Filho, em agosto, foi explícito sobre supostas contribuições políticas e relatou colaborações de duas outras empresas que o Estado não conseguiu identificar. Ele comentava um telefonema "do Mussi e Valle": "Estavam juntos com o presidente da Docas solicitando minha presença."Ao resumir o assunto a ser tratado, ele diz, em outro texto sem pontuação: "Docas solicita R$ 40 mil para cada PT e PL para as campanhas uma vez que os deputados deles estão cobrando esse dinheiro dele para as campanhas. Lembro que Multi e Libra cada uma deu R$ 100 mil para eles e acham que iremos dar o mesmo valor."CONDENa mesma mensagem, Mattos Filho fala do pedido de Rotemberg de ajuda para a campanha de Conde. Ao terminar, diz: "Lembro que todas essas pessoas estão diretamente ligadas a nós e sempre iremos precisar dessas pessoas."Ao responder esta mensagem, o sócio Wladimir Pereira Gomes falou de uma carta/aditivo que estava para receber da estatal. Coincidentemente, em agosto daquele ano, Docas estava refazendo seus contratos através de termos aditivos.Disse Wladimir: "Vamos ter que continuar pagando o combinado que é mais cinco parcelas de R$ 500 mil sendo que hoje já temos os 100.000 para pagar o que desde o início CDRJ nos informou ser para atender esses mesmos partidos." Em seguida, acrescenta: "Para um porto que não tem movimento de carga é extremamente incoerente poder dispor de tais quantias sempre que solicitado."As mensagens fazem referência ainda à briga entre o então prefeito de Angra, Fernando Jordão (PMDB), e seu vice, o hoje deputado estadual Aurélio Marques (sem partido). Em síntese, falam que Marques cobrava a sua parte e os sócios de Angraporto alegavam que já tinham entregue para Jordão por um secretário, Bento Pousa.

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