PF indicia mulher de Paulinho por lavagem de dinheiro

Elza preside ONG que teria sido usada para captar verba do BNDES

Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

04 de dezembro de 2008 | 00h00

A Polícia Federal indiciou criminalmente Elza de Fátima Costa Pereira, mulher do deputado Paulinho da Força (PDT-SP). Elza foi enquadrada em lavagem de dinheiro - ocultação de recursos de origem ilícita. A PF suspeita que a ONG Meu Guri, por ela presidida, foi usada para captar verbas desviadas de financiamentos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para execução de projetos de empresas e prefeituras.O indiciamento foi formalizado no relatório final do inquérito 12-0198/08, da Delegacia de Combate ao Crime Organizado da PF em São Paulo. O inquérito, que chegou ontem à 2ª Vara Criminal da Justiça Federal, foi produzido a partir de um desdobramento da Operação Santa Tereza, deflagrada em abril.O inquérito principal foi aberto para investigar crimes contra o sistema financeiro, formação de quadrilha, prostituição e lavagem de dinheiro. A Procuradoria da República denunciou 13 suspeitos e enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedido de investigação sobre Paulinho.A necessidade de novas apurações fez a PF abrir o segundo inquérito, agora concluído. Além de Elza, foram indiciados 5 investigados - entre eles, José Brito de França, ex-assessor do deputado Roberto Santiago (PV-SP).A Justiça decretou a quebra do sigilo bancário da Meu Guri. "Há fortes suspeitas no sentido de que a ONG tenha como finalidade real a lavagem de dinheiro proveniente de delitos de natureza variada, praticados por quadrilha que ocupa cargos de chefia na Força Sindical de São Paulo", assinala o relatório. A Força é comandada por Paulinho.A PF descobriu depósitos em série em conta da ONG de Elza. "Fato curioso é o depósito em dinheiro, não identificado, de quantias seqüenciais de nove mil reais, em algumas épocas, diariamente", assinala o dossiê.No dia 1º de abril, o lobista João Pedro de Moura, ex-conselheiro do BNDES ligado a Paulinho, efetuou depósito de R$ 37,5 mil na conta da Meu Guri. "O dinheiro é proveniente de parcelas desviadas do BNDES, referentes à parte de João Pedro, segundo as planilhas da quadrilha", afirma a Polícia Federal.Agentes da PF seguiram João Pedro na Câmara. Ele foi espreitado ao lado de Paulinho até no plenário."Elza de Fátima, por meio de engenhosa explicação, buscou justificar o depósito", anota o relatório. À PF, ela disse que, em 2004, João Pedro fez doação de um apartamento à ONG. "João Pedro outorgou procuração para que a ONG pudesse vender o apartamento e ficar com o dinheiro da venda", diz a Polícia Federal. "Como se não causasse espanto o ato benevolente de João Pedro em doar um apartamento que na escritura valia R$ 100 mil, ao passo em que está sendo processado por desvio de dinheiro público, ele teria planejado retomar o imóvel neste ano de 2008, para morar nele.""É mais um absurdo que se comete contra a família do deputado porque não existe nenhuma hipótese de lavagem de dinheiro que envolva a mulher do Paulinho", reagiu o advogado Antonio Rosella, defensor do pedetista.Rosella destacou que o BNDES concluiu auditoria que atesta não ter havido desvios. "Ou seja, o fato original não existe. A Meu Guri tem a contabilidade absolutamente em ordem, prestou contas à Receita. É uma entidade reconhecida como de utilidade pública. Tem idoneidade. Se a polícia examinar as contas da Meu Guri vai conferir que nunca existiu lavagem.""Só há um depósito na Meu Guri por meio do qual se pretendeu fazer elo com desvios no BNDES que nem ocorreram", reitera o criminalista Leônidas Scholz. "O depósito (R$ 37,5 mil) está documentalmente esclarecido. Refere-se à substituição da venda de um apartamento de João Pedro que não ocorreu até porque seus bens se tornaram indisponíveis."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.