PF indicia braço direito de Dantas

Como fez o dono do Opportunity na véspera, Dório Ferman ficou em silêncio diante do delegado que preside o caso

Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

29 de abril de 2009 | 00h00

A Polícia Federal indiciou ontem por seis crimes Dório Ferman, presidente do Banco Opportunity e braço direito do banqueiro Daniel Dantas. A exemplo de Dantas - alvo maior da Operação Satiagraha e enquadrado segunda-feira pela PF -, Ferman ficou em silêncio diante do delegado Ricardo Andrade Saadi, que preside o caso.Indignado porque, segundo alega, não teve acesso a 50 volumes de documentos que a PF juntou aos autos "em cima da hora", Ferman recusou-se até mesmo a assinar nota de culpa - ato formal de seu indiciamento -, fato incomum na rotina policial.Evasão de divisas, lavagem de dinheiro, empréstimos vedados pela Lei do Colarinho Branco, sonegação fiscal, gestão fraudulenta de instituição financeira e formação de quadrilha são os delitos atribuídos a Ferman."Se no Brasil as pessoas forem indiciadas graças a uma frase nós vamos muito mal", protestou o criminalista Antônio Sérgio de Moraes Pitombo, que defende Dório Ferman e o acompanhou na audiência. "A Satiagraha é uma marca para os brasileiros. Ou o Brasil aprende a trabalhar dentro da legalidade ou não vai dar certo. Vai ser o antes e o depois. Ou o Brasil opta por ser um país reacionário, podendo se comparar à Rússia, onde existem os inimigos do povo, ou vai ser um país em que se cumpre a Constituição e a lei."O banqueiro completou o ciclo de indiciamentos da Satiagraha, 13 ao todo. Ontem, além de Ferman, foram enquadrados Itamar Benigno, gestor do banco, Carlos Bernardo Torres Rodemburgo, operador do grupo, e Humberto Braz, condenado com Dantas no processo por corrupção.A PF sustenta que Dantas liderava organização criminosa para fraudes financeiras e remessas ilegais para paraísos fiscais por meio do Opportunity Fund. A Dório Ferman, o delegado Protógenes Queiroz, criador da Satiagraha, havia conferido o papel de "capo da organização, começou a carreira com Daniel Dantas em uma corretora". Protógenes acabou afastado de suas funções na PF e indiciado por quebra de sigilo funcional e violação da Lei da Interceptação Telefônica.PRESSA POLÍTICAA PF planeja relatar o inquérito até amanhã e enviar os autos ao juiz Fausto Martin De Sanctis, da 6.ª Vara Criminal Federal, que já condenou Dantas a 10 anos de prisão por suposto crime de corrupção ativa.O inquérito seguirá para o procurador da República Rodrigo de Grandis, acusador de Dantas. Grandis prepara denúncia criminal contra o banqueiro e sua equipe. Não se sabe, ainda, se o procurador pedirá novamente a prisão de Dantas, como fez em 2008 em duas ocasiões.Antônio Pitombo, o advogado de Ferman, acusa "pressa política" na Satiagraha. Na segunda-feira, ele ingressou com habeas corpus na Justiça Federal pedindo prazo de 5 a 10 dias para que pudesse examinar minuciosamente toda a papelada que a PF juntou ao inquérito, como laudos periciais e documentos relativos à cooperação internacional para bloqueio de valores do Opportunity.A direção do grupo insurge-se contra as acusações de malversação no fundo. O Opportunity sustenta que "segue com extremo rigor todas as normas expedidas pelas autoridades públicas que disciplinam essa modalidade de investimento". Os assessores de Dantas consideram que o Opportunity passa por "um longo processo de discriminação por atuar nos mesmos padrões do mercado"."Há uma pressa inexplicável para chegar-se ao encerramento de um caso de tamanha magnitude e complexidade", afirma o advogado. "Não há nenhum juízo técnico. Quando você lê um comunicado da própria polícia dizendo da satisfação do ministro (Tarso Genro, de Justiça)com o fim da operação, todos temos de lamentar. O inquérito policial é procedimento que deve ser voltado à busca da verdade. Meu cliente estava pronto para depor, mas como profissional não posso concordar em fazer o jogo de um processo de surpresas."Ao deixar a PF, Ferman falou sobre "a voz das ruas". Seu advogado acredita que não houve aí nenhuma referência ao ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, que, semana passada, sugeriu ao presidente da corte, Gilmar Mendes, que vá às ruas. FRASESAntônio Sérgio de Moraes PitomboAdvogado de defesa"A Satiagraha é uma marca para os brasileiros. Ou o Brasil aprende a trabalhar dentro da legalidade ou não vai dar certo. Vai ser o antes e o depois. Ou o Brasil opta por ser um país reacionário, podendo se comparar à Rússia, onde existem os inimigos do povo, ou vai ser um país em que se cumpre a Constituição e a lei"

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