PF deixou alemão do caso Cuba sair do País

Inquérito apura em que circunstâncias boxeadores caribenhos deixaram delegação de seu país no Pan

Clarissa Thomé, RIO, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2013 | 00h00

Um dia antes de os cubanos Guillermo Rigondeuaux, de 25 anos, e Erislandy Lara, de 24, aparecerem em Araruama, na Região dos Lagos, a Polícia Federal já sabia que o cubano de cidadania alemã Evelio Alexis Madrigal Moreira, um dos suspeitos de ter assediado os boxeadores, esteve com os atletas e viajou para "uma cidade próxima do Rio". Mas não o impediu de deixar o País. Os cubanos fugiram de sua delegação nos Jogos Pan-Americanos e depois acabaram presos no Rio. Em menos de 48 horas, após duas entrevistas com delegados da PF e uma com um procurador do Ministério Público Federal, tiveram suas situações definidas para embarcar num avião fretado pelo governo cubano de volta a Havana. Em suas entrevistas, eles afirmaram que queriam voltar.Madrigal e outro suspeito de ter tentado levar os cubanos, o alemão Thomas Doering, estão sendo investigados num inquérito sobre aliciamento e suposto cárcere privado aberto na delegacia da PF em Niterói. Madrigal fez as declarações pouco antes de embarcar para a Alemanha, na tarde do dia 1º de agosto, na delegacia da PF do Aeroporto Internacional Tom Jobim. Na mesma tarde, Doering também foi interrogado. Os depoimentos divergem em vários pontos. Eles foram interpelados quando se preparavam para embarcar porque a Secretaria Nacional de Segurança Pública havia emitido um alerta a respeito deles. O depoimento de Madrigal tem algumas inconsistências, mas já continha pistas do que seria revelado no dia seguinte, quando Rigondeaux e Lara pediram ajuda a um guarda-vidas, em Araruama. Ele foi o primeiro a informar que o grupo se hospedou no Hotel Tower Icaraí, em Niterói, logo depois da fuga dos atletas da Vila Pan-Americana. E de lá seguiram para uma cidade próxima, com outros dois atletas cubanos, tendo retornado no dia seguinte. Aos policiais, Madrigal disse que não sabia "informar a razão de percorrerem este trajeto". Na verdade, o passeio durou dez dias. Não havia outros dois atletas cubanos, mas sim duas prostitutas, segundo depoimentos de gerentes de pousadas e pessoas que viram o grupo circulando entre Niterói e Região dos Lagos. Madrigal disse ainda que viu os cubanos pela última vez no dia 29 de julho, em Copacabana. Alertado pelos policiais de que ele e Doering haviam sido os últimos a ver os boxeadores cubanos, respondeu que "os cubanos aparecerão em uma ou duas semanas". Já Doering disse que não via os cubanos havia mais de dez dias. E que era repórter da televisão alemã Sat I, apesar de sua credencial no Co-Rio informar que ele trabalhava para a ZDF, a rede de televisão estatal. Na sexta-feira, o comitê descobriu que Doering havia falsificado um e-mail da ZDF para obter a credencial. Outro ponto divergente: Doering disse que alugou um apartamento e que Madrigal hospedou-se com ele. Já Madrigal disse que ficou num imóvel alugado por um amigo brasileiro, de nome José Soares, cujo endereço e telefone desconhecia.O governo federal está convencido de que os boxeadores cubanos quiseram voltar para Havana e para isso escalou o próprio ministro da Justiça, Tarso Genro, para reafirmar a questão.Mas choveram críticas questionando se o governo não deixou prevalecer o lado político sobre o humanitário. O ex-ministro das Relações Exteriores Celso Lafer foi taxativo ao dizer que os direitos dos cubanos não foram respeitados. A ONG Humam Rights Watch questionou formalmente o governo para saber se os "potenciais refugiados" foram tratados como tais e a Arena Box Promotion, agência alemã que teria tentado levar os boxeadores, acusou o governo cubano de ameaçar os familiares dos esportistas.

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