PF deflagra busca em ONG e empresas de ex-jogadora Karina Rodrigues

Operação Gol de Mão apura desvio de recursos do programa Segundo Tempo, do Ministério do Esporte

Ricardo Brandt, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2012 | 09h47

CAMPINAS - A Polícia Federal deflagrou na manhã desta terça-feira, 31, uma operação de busca e apreensão na residência da ex-jogadora de basquete Karina Valéria Rodrigues, na sede da organização não-governamental (ONG) Pra Frente Brasil (fundada e coordenada por ela), em três empresas que seriam de fachada, em dois escritórios de contabilidade e na casa de um suposto laranja, nas cidades de Jaguariúna (SP) e Pedreira (SP).

A Operação Gol de Mão da PF, com base nas investigações conjuntas com a Controladoria Geral da União (CGU) e o Ministério Público Federal (MPF), apura desvio de recursos do programa Segundo Tempo, do Ministério do Esporte. A ONG, um dos pivôs do escândalo que derrubou no ano passado o então ministro, Orlando Silva, do PC do B, recebeu da União mais de R$ 30 milhões, entre 2007 e 2011.

O delegado da PF, Jessé Coelho de Almeida, afirmou que as investigações já conseguiram comprovar que houve fraudes e que boa parte do dinheiro foi desviado. Karina, um ex-assessor e pessoas ligadas a ela devem ser enquadrados por fraude em licitações, peculato e formação de quadrilha, com penas que variam de 1 as 12 anos de prisão.

Segundo a investigação, as contratações feitas pela ONG para implantar 180 núcleos de esporte educacional em 13 cidades do Estado de São Paulo, promovendo a prática de esportes para 18 mil crianças, adolescentes e jovens, seriam direcionadas para empresas em nome de pessoas ligadas à ex-atleta. As firmas seriam de fachada para desviar os recursos. Relatório da CGU apontou que a entidade não fornecia os serviços e materiais esportivos em qualidade e quantidade que declarava.

"Duas empresas estavam registradas em um mesmo endereço, onde existe uma residência. Essas empresas, que só existiam no papel, receberam R$

4 milhões e forneciam só para a ONG", conta o delegado. Outra empresa onde foram feitas buscas é a RNC, registrada em nome de Reinaldo Morandi, um ex-assessor de Karina, que hoje é vereadora pelo PCdoB, em Jaguariúna. "A empresa recebeu R$ 10 milhões para fornecer kit lanches e também só fornecia para a ONG", acrescentou Almeida.

A operação da PF envolveu 40 agentes federais e oito funcionários da CGU, e chamou a atenção de quem passava na pequena Jaguariúna, onde está a sede da ONG. Nos sete locais de busca, foram apreendidos documentos, noteboobs, pendrives e CPUs que encheram três picapes da corporação.

Maquiagem

O delegado da PF informou que a ONG, "toda vez que seriam feitas fiscalizações, convocava alunos até mesmo de outras regiões para serem contabilizados. "Tudo foi inflado para maquiar o desvio de recursos do Ministério de Esportes", afirmou Coelho. Os programas desenvolvidos pela entidade da ex-jogadora atendiam até cinco vezes menos crianças carentes do que o previsto nos convênios, segundo o MPF.

A polícia disse ainda que a ONG mudava rotineiramente de diretoria, para ocultar as fraudes e dificultar eventuais investigações. Nota da PF informa que as diretorias eram constituídas por pessoas próximas à Karina, em geral parentes entre si, incluindo até pessoas de idade avançada, como é o caso de uma vice-diretora, de 95 anos.

"As buscas de hoje foram para colher material para fortalecermos as provas do caso", explicou o delegado. Até a próxima semana, 16 pessoas serão chamadas para prestar depoimento, entre elas, a ex-jogadora.

Defesa

Karina afirmou que todas as documentações referentes ao contratos da ONG foram entregues e que no momento certo vai prestar depoimento sobre as acusações. "Levaram da minha casa uma agenda e meu iPad. Já na ONG levaram umas 100 caixas do arquivo morto", afirmou a ex-jogadora.

"Quero deixar claro que são possíveis irregularidades. Não queremos ser condenados antes da hora. Desde que tudo isso começou no ano passado, estamos aqui para apresentar todos os documentos que forem pedidos pelo Ministério Público e pela polícia", declarou Karina.

A ex-jogadora e coordenadora da ONG afirmou que quer ser ouvida no inquérito. "Não vou discutir agora isso. Na hora certa o Ministério Público vai ter que apresentar as suas provas e nós vamos provar que tudo foi feito corretamente e está registrado."

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