PF concentra relatório do caso dossiê em PT paulista

Relatório parcial divulgado nesta segunda-feira mostra que a Polícia Federal concentra no PT paulista as investigações sobre o caso do dossiê contra tucanos, poupando a direção nacional do partido e o Palácio do Planalto. A polícia quer convocar para depor o presidente do Diretório Estadual do PT de São Paulo, Paulo Frateschi, e o tesoureiro, Antônio dos Santos, além do coordenador financeiro da campanha do senador Aloizio Mercadante ao governo paulista, José Giácomo Baccarin. O objetivo é aprofundar a suspeita de que o PT paulista seria o contratante da operação para compra e divulgação do dossiê, com o objetivo de prejudicar a candidatura do tucano José Serra, que acabou eleito governador do Estado.A convocação dos três é uma das medidas sugeridas no relatório parcial do inquérito da PF, entregue nesta segunda pelo delegado Diógenes Curado ao juiz da 3.ª Vara Federal de Cuiabá, Jefferson Schneider, que autorizou sua divulgação à noite, com a supressão de páginas protegidas pela lei do sigilo telefônico. "É preciso fechar todas as circunstâncias que envolvem os interessados na compra e divulgação do dossiê, dentro da hipótese que trabalha o delegado", explicou o superintendente da PF no Mato Grosso, Daniel Lorenz.Conforme o relatório, "a PF não tem dúvida" da participação do petista Hamilton Lacerda, coordenador da campanha de Mercadante, na compra do dossiê. As principais provas são as imagens do circuito interno do Hotel Íbis Congonhas, no momento em que Lacerda chegava com as malas do dinheiro e os relatórios da área de inteligência da PF. Os relatórios mostram que o petista usou indevidamente o telefone da promoter Ana Paula Cardoso Vieira para articular a operação com os demais "aloprados" do partido - conforme a expressão usada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com cinco páginas, o relatório resume diligências e provas reunidas nos últimos 30 dias e pede mais prazo para concluir as investigações. Berzoini e outros petistasO documento não acusa o presidente licenciado do PT e coordenador da candidatura à reeleição do presidente Lula, deputado Ricardo Berzoini (SP), como o mandante da compra do dossiê, como chegou a ser cogitado pela imprensa. "Não trabalhamos com essa hipótese neste momento", enfatizou Lorenz.Essa percepção da PF, por enquanto, deixa o presidente Lula fora de mira das investigações. Mesmo que Berzoini venha a ser acusado de envolvimento no caso, sua responsabilidade criminal não pode ser transferida ao presidente, a menos que ele confesse que agiu a mando de Lula, segundo explicou um policial com acesso às investigações.O relatório sustenta que os dólares (US$ 248,8 mil) encontrados com os petistas para compra do dossiê passaram pela casa de câmbio Vicatur, de Nova Iguaçu, no Rio, que se utilizou de uma família de clientes "laranjas". Alguns alugaram seus CPFs e outros foram usados sem conhecimento.Apesar de acusar Lacerda diretamente no caso, a PF não o indiciou, nem aos outros cinco dirigentes petistas investigados por participação na compra do dossiê. "É cedo para tecermos considerações sobre as outras pessoas que participaram da trama", enfatiza o relatório.Com 1.190 páginas produzidas em dois meses de investigação, o inquérito mantém a linha adotada desde o início pela PF de que o R$ 1,75 milhão destinado à compra do dossiê provém de caixa 2 e passou por uma complexo processo de despiste, típico de organizações criminosas, antes de ser apreendido em poder dos petistas Gedimar Passos e Valdebran Padilha, em 15 de setembro passado, num hotel de São Paulo.A trama foi executada por seis petistas, quatro deles membros do setor de inteligência da campanha de Lula e subordinados a Berzoini: Jorge Lorenzetti, Expedito Afonso Ribeiro, Oswaldo Bargas e Gedimar Passos. Os outros dois são Lacerda é Valdebran Padilha, do PT de Cuiabá, preso com Gedimar com o dinheiro.Na próxima fase, caso o juiz prorrogue a investigação, a PF pretende chegar ao mandante da operação e ao desvendamento completo da origem do dinheiro. Já se sabe que os dólares vieram dos Estados Unidos e passaram pela Vicatur, mas a origem do R$ 1,16 milhão permanece um mistério. O dinheiro, na maior parte em notas de pequeno valor e velhas, foi muito bem disfarçado.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.