PF cita Paulinho da Força em desvios no BNDES

Relatório reservado da polícia sustenta que deputado 'possivelmente' recebeu dinheiro ilícito da quadrilha

Fausto Macedo e Rodrigo Pereira, de O Estado de S. Paulo,

27 de abril de 2008 | 00h11

Santa Tereza, missão da Polícia Federal que investiga suposto esquema de desvio de verbas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), sugere envolvimento do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força. O nome do parlamentar é citado freqüentemente em relatório secreto da PF, peça de 38 páginas que embasou decreto judicial de prisão de 11 suspeitos, entre eles João Pedro de Moura, que os federais classificam de "um dos principais assessores da Força Sindical, responsável pela ligação da organização criminosa com o banco".   Veja Também:   Advogado preso por desvios no BNDES é solto 'Não me preocupei com prisão de advogado de Maluf', diz Lula PF investiga prostituição e encontra fraude no BNDES Especial: as ações da Polícia Federal no governo Lula     Paulinho foi monitorado pela Santa Tereza nos corredores da Câmara. Como na manhã de 13 de fevereiro, uma quarta-feira, quando federais disfarçados o filmaram acompanhado de Moura, amigo e ex-assessor do deputado na Força. Os agentes espreitaram por quase 3 horas o conjunto 217 do Anexo IV da Câmara, onde fica o gabinete de Paulinho, mas não chegaram a entrar.   Trecho de documento confidencial da PF informa: "Na data de 15 de fevereiro de 2008, às 17h52, Mantovani (Marcos Vieira Mantovani, empresário) confirma com João Pedro o recebimento da sua parcela do desvio do empréstimo do BNDES à Praia Grande. Ele diz que já retirou o envelope e já separou a parte do RT e do PA."   A PF suspeita que RT são as iniciais de Ricardo Tosto, advogado de Paulinho e sucessor de Moura no Conselho de Administração do BNDES, que estava preso e foi solto no último sábado. A polícia assinala oficialmente que PA "possivelmente" é Paulinho.   No capítulo dedicado à suposta participação de Ricardo Tosto, a PF faz menção a um repasse de R$ 126 milhões do BNDES ao município de Praia Grande e acentua no primeiro parágrafo: "Tosto participa da divisão do dinheiro desviado da Prefeitura da Praia Grande. A conversa entre Manuel e Boris (integrantes do grupo), do dia 23 de janeiro de 2008, às 14h46, esclarece quem seriam os beneficiados, e as respectivas porcentagens. Relembrando, Mantovani ficaria com R$ 1,3 milhão e seria o responsável pelo pagamento de Paulinho, Tosto e José Gaspar."   Foro privilegiado   Os policiais, porém, não avançaram na direção de Paulinho por uma questão legal - como deputado, ele desfruta de prerrogativa de foro perante o Supremo Tribunal Federal (STF). Se incluísse formalmente o pedetista na investigação, a polícia tornaria nulo tudo o que Santa Tereza apurou, inclusive as provas colhidas sobre empréstimos irregulares concedidos pelo BNDES.   Foi no cumprimento à ordem de missão 71/08 que a PF chegou muito perto de Paulinho e dele até gravou imagens. Dois agentes federais seguiram até Brasília, "com o objetivo de registrar e identificar os encontros do alvo João Pedro". O monitoramento é ilustrado com 17 fotos - extraídas de vídeo -, também do deputado, que os federais destacaram com um círculo.   O braço direito de Paulinho embarcou no vôo 1598, da Gol. Ele chegou às 22h10 de 12 de fevereiro no Aeroporto Juscelino Kubitschek. Os federais o espionavam permanentemente."Durante todo o transcorrer do dia posterior à sua chegada em Brasília, o alvo participou de diversas reuniões e encontros na cidade", descreve o relatório. "Sempre está participando de reuniões com diversos políticos, prefeitos, vereadores, assessores. Estas reuniões têm como escopo a liberação de verbas federais."   Às 9h06 do dia 13, uma quarta-feira, Moura chegou à Câmara de táxi e seguiu para o gabinete 217, de Paulinho. Quando entrou no prédio, mostra a primeira foto do álbum, ele tinha nas mãos uma mochila. "É mister perceber, na foto abaixo, que João Pedro de Moura desembarca pela manhã levando consigo uma mochila, a qual não é mais vista com ele durante o decorrer do dia", diz o relatório. "João Pedro reúne-se com diversas pessoas no interior do gabinete 217, saindo de lá às 9h26, acompanhado", anotou a PF.   Por quase cinco meses a PF grampeou os telefones dos investigados, com autorização do juiz Marcio Ferro Catapani, da 2ª Vara Federal de São Paulo. Manuel Fernandes de Bastos Filho, o Maneco, único foragido da Santa Tereza, e o coronel da reserva da Polícia Militar Wilson Consani Júnior foram interceptados. O primeiro é sócio da casa de prostituição W.E., na Bela Cintra. O coronel cuida do sistema de segurança.   Eles conversam rotineiramente com Moura, como no dia 28 de janeiro, às 16h41. O tema central: Tosto e Paulinho. O relatório da PF: "Conforme Manuel, Tosto ‘está podendo muito’. Consani concorda, dizendo que ‘dentro do PDT e com Paulinho pode muito’. Diz que ‘está no conselho do BNDES e ele é forte lá’."

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