PF chamará Lacerda para explicar participação da Abin

Diretor afastado teria consentido oficialmente com engajamento de arapongas na investigação

Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

25 de novembro de 2008 | 00h00

A Polícia Federal vai chamar para depor seu ex-diretor-geral, delegado Paulo Lacerda, no inquérito que investiga suposto crime de usurpação de função pública durante a Operação Satiagraha. Diretor afastado da Agência Brasileira de Inteligência, Lacerda teria concordado oficialmente com o engajamento de 84 agentes e oficiais da Abin na investigação que é de competência da PF.Ainda não há data marcada para a audiência de Lacerda, mas sua convocação é inevitável, na avaliação da PF. O inquérito foi aberto para apurar vazamento de dados da Satiagraha cobertos pelo sigilo. Durante a investigação, a PF constatou que o delegado Protógenes Queiroz, mentor da Satiagraha, recrutou os arapongas da Abin para reforçar o cerco ao banqueiro Daniel Dantas, do Grupo Opportunity.O inquérito é dirigido pelo delegado Amaro Ferreira, corregedor da PF. Ele tomou o depoimento de 28 funcionários da Abin - e eles revelaram o papel que desempenharam na Satiagraha, a mando de Protógenes.Para a PF, a mobilização de aparato tão expressivo não pode ter ocorrido sem autorização de Lacerda.Thelio Braun D?Azevedo, oficial de Inteligência, lotado na sede da Abin em Brasília, relatou ter acatado ordens para escalar agentes. "Na condição de Diretor de Operações de Inteligência recebeu determinação superior para indicar 4 nomes de servidores que iriam cumprir uma missão, que não lhe fora revelada", disse à PF.Alguns arapongas admitiram acesso ao Sistema Guardião, a máquina de grampos da PF, por meio de senhas pessoais e intransferíveis de agentes da PF. Há 20 dias, a PF fez buscas no Centro de Operações da Abin, no Rio.As dúvidas que cercam Lacerda são relativas ao seu grau de comprometimento na cessão de agentes da Abin para a Satiagraha. O delegado Amaro Ferreira juntou ao inquérito o depoimento de Lacerda à CPI dos Grampos, que investiga abusos com a chancela do Judiciário na interceptação telefônica.À CPI, Lacerda fez um desabafo. "Na opinião de alguns, os suspeitos de sempre estão na Abin. Persiste certa intolerância e incompreensão com a atividade de inteligência." Ele condenou "entendimento equivocado de alguns no sentido de que servidores da Abin não estariam legitimados a colaborar com outros órgãos ou entes da administração em serviços de sua área especializada, posição restritiva que não é juridicamente sustentável".Segundo Lacerda, a Satiagraha, "por sua complexidade e dimensão, certamente contou com o auxílio especializado não apenas de alguns servidores da Abin, mas também o de outros órgãos das áreas de mercado financeiro e de fiscalização tributária". Ele contou que foi Protógenes quem pediu "cooperação de alguns oficiais da Abin" com seu trabalho.

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