PF aponta diretor do Trabalho como articulador de convênios ilícitos

Relatório da Polícia Federal mostra que Rodolfo Torelly comentou com investigado da Operação Pronto Emprego sobre 'resistências' no Ministério

Fausto Macedo, O Estado de S. Paulo

17 de setembro de 2013 | 20h47

A Operação Pronto Emprego, investigação da Polícia Federal sobre desvio de R$ 18 milhões de um convênio do Ministério do Trabalho revela que um assessor de primeiro escalão da pasta, Rodolfo Peres Torelly - diretor do Departamento de Emprego e Salário - alertou a cúpula do Centro de Atendimento ao Trabalhador (Ceat) sobre o interesse de outra ONG, localizada na zona Leste de São Paulo, em celebrar convênio.

"Se houver chamada pública o grupo da zona Leste pode levar alguma coisinha", disse Torelly, segundo relatório da PF.

A preocupação dos investigados pela PF era com o fato de a ONG ainda não possuir os cinco anos de execução de convênio com o Ministério do Trabalho, o que dificultaria o aditamento sem chamamento público - e o CEAT poderia perder a primazia no Ministério.

O nome de Torelly é citado em uma escuta telefônica da PF em 28 de maio, às 16h49. Padre Lício de Araújo Vale, apontado pela PF como articulador dos aditamentos ilícitos ao convênio do Ministério com o Ceat, ligou naquela ocasião para Jorgette Maria Oliveira, presidente da entidade. A conversa foi sobre uma viagem dele a Brasília, onde foi recebido na chefia de gabinete do ministro do Trabalho, Manoel Dias.

Segundo relatório da PF, ao comentar com padre Lício sobre a ONG da zona Leste, o diretor do Departamento de Emprego e Salário, Rodolfo Torelly, disse que "se tiver chamada a gente abre alguma coisa pequenininha na zona Leste."

O religioso ligou para Jorgette e a comunicou sobre a informação que diz ter recebido de Torelly, sobre a ida do grupo da zona Leste ao Ministério "para tentar celebrar um convênio".

O relatório da PF mostra que o comando do Ceat ficou preocupado com a rivalidade da ONG da zona Leste, que almejava verbas do Trabalho para capacitação e colocação de trabalhadores no mercado, sua mesma área de atuação.

Em outra interceptação da PF, Jorgette demonstra irritação e indaga de outro investigado, Alessandro Rodrigues Vieira, diretor jurídico da ONG, sobre Gleide Santos Costa, assessor de Torelly e suposto elo da organização criminosa e o Ministério, segundo a Operação Pronto Emprego.

Alessandro Vieira informa que Gleide está na Espanha, "no casamento do filho". Jorgette diz que "vai para cima de Gleide"". E avisa: "Vamos pressionar esses caras."

O relatório da PF destaca que Alessandro Vieira, o diretor jurídico da ONG, vai conversar com Gleide Costa para saber "quem está por trás desse pleito que poderá abrir concorrência com o Ceat".

Gleide Costa foi preso em flagrante na manhã de 3 de setembro, em um hotel no Centro de São Paulo, com R$ 30 mil em dinheiro que, segundo a PF, havia recebido de Jorgette como pagamento por seu empenho na assinatura do aditamento ao convênio da ONG com o Ministério do Trabalho.

A Polícia Federal constatou ainda que, em conversa com padre Lício, Rodolfo Torelly ressaltou sobre "resistências dentro do Ministério do Trabalho entre o grupo do secretário executivo Paulo Roberto (investigado na Operação Esopo) e o grupo do ministro Manoel Dias".

Torelly menciona a "importância de se aproximar de Manoel Dias". Em sua avaliação, "o melhor caminho (para se aproximar do ministro) será por intermédio do seu chefe de gabinete, Roberto Minoto".

A Assessoria de Comunicação do Ministério do Trabalho informou que Rodolfo Torelly não quis se manifestar sobre o relatório da Operação Pronto Emprego.

O criminalista Pedro Iokoi, que defende Jorgette e a ONG Ceat, afirma que não há irregularidades nos trabalhos da entidade.

Iokoi preparou relatório que será entregue à Justiça. O documento mostra o desempenho da ONG, com dados sobre o número de trabalhadores atendidos e colocados no mercado, em São Paulo e no Rio de Janeiro. "O CEAT não é uma entidade de fachada", afirma.

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