PEDRO GONTIJO|O TEMPO
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Petrolão pagou silêncio de Marcos Valério no mensalão, diz Delcídio

 A negociação teria custado entre R$ 110 milhões e R$ 220 milhões, pagos por empreiteiras do esquema de corrupção na Petrobrás - revelado pela Operação Lava Jato

Adriano Ceolin, Beatriz Bulla, Eduardo Rodrigues, Fábio Fabrini e Gustavo Aguiar, O Estado de S. Paulo

15 de março de 2016 | 14h09

BRASÍLIA - Em acordo de colaboração premiada, o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) afirmou que o ex-presidente Luiz Inácio da Silva e o ex-ministro Antonio Palocci atuaram na compra do silêncio do operador do mensalão, Marcos Valério Fernandes de Souza.  A negociação teria custado entre R$ 110 milhões e R$ 220 milhões, pagos por empreiteiras do esquema de corrupção na Petrobrás - revelado pela Operação Lava Jato.

"Havia conversas muito fortes ao longo da campanha de 2008 (disputa municipal) de que os pagamentos estavam sendo por (para) Marcos Valério no exterior, em suas contas ou de terceiros, que não sabe se os valores foram de 220 milhões, pois ouviu que foi em torno de R$ 110 milhões, que possivelmente foram as grandes empreiteiras ligadas à Lava Jato que fizeram tais pagamentos", disse Delcídio em depoimento.

O senador ainda registrou que "tais empresas (...) eram os grandes doadores" "A estratégia mais fácil era desta forma e também porque, sistematicamente, estes pagamentos no exterior, que tal informação surgiu de várias origens, de dentro e fora do PT e inclusive no meio empresarial, que isto era bastante disseminado", disse Delcídio.

A informação consta no termo de colaboração número 3 referentes ao anexo 4 cujo título  é "Participações de Lula e Palocci na compra do silêncio de Marcos Valério no Mensalão." Delcídio prestou um depoimento de nove páginas sobre o assunto, no dia 12 de fevereiro de 2016, sete dias antes de ser solto pelo ministro Teori Zavascki. 

No relato, Delcídio conta que soube das negociações com Valério porque foi presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios, que investigou entre 2005 e 2006, o esquema do mensalão. "Ao longo das investigações, Marcos Valério pediu uma conversa reservada com o depoente, ainda durante os trabalhos da CPI (...)", disse.

Ainda segundo Delcídio, o encontro com Valério aconteceu em Brasília, no dia 14 de fevereiro de 2006, no apartamento de uma funcionária do Senado identificada como Cleide. Da conversa, somente teriam participado Valério e o sócio dele, Rogério Tolentino. O operador do mensalão teria pedido um ressarcimento e feito uma ameaça. "Se estas coisas não forem resolvidas, se a situação está ruim, vai ficar pior ainda", teria dito Valério a Delcídio.

O senador contou que repassou o recado a Lula uma semana depois da conversa com Valério. "Ademais, quando marcou, já disse que era urgente, que Lula - e nunca o depoente esquece disso, pois era final de tarde bonito - não falou nada, ficou constrangido e "branco". Que o depoente percebeu que Lula ficou "mal", quando ouviu aquilo, mas não comentou nada. Que o depoente apenas se despediu e saiu", diz o depoimento de Delcídio.

O senador deu mais detalhes. Contou que, após a conversa com Lula, o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos (morto em 2014)), ligou para ele. Na sequência, foi a vez do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Segundo Delcídio, Palocci teria dito que "o presidente ficou puto da vida com o que você disse" e que, ele, Palocci iria "resolver pessoalmente aquilo". "Que Palocci ligou para que o depoente (Delcídio) saísse de cena", registra o depoimento do senador.

Os outros lados. O advogado Marcelo Leonardo, que atua na defesa do empresário Marcos Valério, disse que prefere se posicionar quando tiver conhecimento integral do conteúdo da delação de Delcídio. Leonardo afirmou que, antes, também precisa conversar com seu cliente. "Não conversei com ele desde a divulgação do conteúdo da delação."

O Instituto Lula informou que não comentaria 'falatório'. "O Instituto Lula não comenta falatórios. Quem quiser levantar suspeitas em relação ao ex-presidente Lula que faça diretamente e apresente provas, ou não merecerá resposta", diz a nota. 

 

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