Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Petrobrás vai do pré-sal à Lava Jato

Alvo de corrupção e desvios, estatal passou da época áurea da descoberta do pré-sal a um dos maiores símbolos da crise no governo

Antonio Pita Fernanda Nunes / RIO, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2016 | 05h00

Apesar de excluída dos argumentos jurídicos do processo de impeachment, a Petrobrás é um dos maiores símbolos da crise do governo. Há dois anos abalada por denúncias de corrupção da Operação Lava Jato, a estatal ainda tenta equilibrar as contas de 13 anos de gestão petista. A trajetória é marcada por momentos de euforia, como o da descoberta do pré-sal, em 2006, seguidos por derrocadas. Desvios de recursos somados à retração dos preços do petróleo no mercado internacional levaram a empresa a registrar perdas contábeis de R$ 95 bilhões nos últimos dois anos.

Mais do que as finanças, o crescimento da produção esteve no foco das gestões petistas na Petrobrás. De 2003 até 2014, o volume de petróleo extraído no País cresceu mais do que o dobro que o do mercado internacional. A expansão foi de 54% no Brasil, ante 19% na média mundial (os últimos dados internacionais são de 2014).

Essa expansão deu ao Brasil a chamada “autossuficiência” de petróleo – quando a produção interna ultrapassa a demanda. Na época, o marco foi saudado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como o momento em que o País se tornava “dono do próprio nariz”. Mas, constituída por uma conjuntura favorável, a situação foi revertida em 2013, após um boom de consumo de combustíveis.

“Foi uma fase áurea”, resume o professor Luiz Pinguelli, diretor da Coppe/UFRJ, que considera “positiva a visão nacionalista” aplicada na estatal. “O projeto era desenvolver a empresa para produzir para o País e exportar o excedente. Mas o consumo subiu muito e os projetos de refino ficaram inacabados, como as refinarias no Nordeste e o Comperj”, explica.

Pasadena. Nessa fase de projetos faraônicos, o setor vivia a euforia dos altos preços do petróleo no mercado internacional, superiores a US$ 100 por barril. Contando com essa receita e de tamanho equivalente ao de multinacionais, a Petrobrás foi atrás de ativos no exterior, como a Refinaria de Pasadena (EUA), redes de postos na América Latina e campos na África.

“A Petrobrás almejava fazer parte do clube da Shell e da Chevron”, avalia o pesquisador Edmar de Almeida, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “A descoberta do pré-sal, em 2007, provocou uma guinada na ambição.”

Além das áreas já conhecidas, com cerca de 40 bilhões de barris, estudos indicam que ainda há no pré-sal 170 bilhões de barris de óleo equivalente (boe) a serem descobertos. “O pré-sal é visto pelo governo como muito mais importante do que a Petrobrás, o que fez com que ela fosse utilizada para atingir objetivos de política pública e não empresarial”, completa Almeida.

Nessa estratégia, a empresa elevou em seis vezes o volume de investimento – saindo de R$ 17 bilhões, em 2002, para cerca de R$ 105 bilhões, em 2013. Os recursos fomentaram a expansão da cadeia fornecedora, sobretudo da indústria naval, hoje em crise simbolizada pelo impasse na Sete Brasil. A participação da estatal na economia saiu de 3% do PIB, em 2000, para 13% atualmente.

Para completar, a estatal dobrou o efetivo de funcionários, de 38 mil, em 2002, para 84 mil, em 2012, e diversificou sua atuação, com investimento em fábricas de fertilizantes, termoelétricas e no setor de biocombustíveis – que, desde a criação em 2008, nunca operou no azul.

Erro de gestão. Parte dos recursos foi obtida por meio de uma megacapitalização – a maior já feita em bolsas de todo o mundo – em 2010, quando a empresa arrecadou US$ 70 bilhões. “Foi um erro de gestão. Para quem tinha o pré-sal, desenvolver uma agenda tão grande não tinha sentido. A empresa teve suas finanças estranguladas”, indica Edmar Almeida.

Os altos investimentos serviram também para fortalecer o capital político da empresa. Ex-diretores da estatal investigados na Operação Lava Jato citam a alta dos gastos como fator decisivo para a consolidação do esquema de desvios nos contratos da empresa. Foram R$ 6 bilhões desviados, pelas contas da própria empresa, além de outros R$ 95 bilhões em baixa contábil referentes a falhas de viabilidade econômica dos projetos.

“A corrupção atrapalhou, porque os ativos custaram mais do que deveriam. Mas o que pesou mesmo foi o subsídio ao diesel e à gasolina”, avaliou o ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e consultor John Forman. Ele cita um ponto unânime de avaliação negativa da trajetória da empresa, pelo mercado financeiro, intensificado a partir de 2011, após a eleição da presidente Dilma Rousseff.

Ao todo, a Petrobrás subsidiou em R$ 80 bilhões os combustíveis, ao adquiri-los no mercado internacional a preços mais altos do que a revenda interna de 2009 a 2014. Para continuar expandindo os volumes de petróleo produzido, recorreu a financiamentos consecutivos – o que elevou sua dívida ao patamar de R$ 492 bilhões no último ano. A situação ficou ainda mais difícil quando o preço do petróleo despencou há quase dois anos.

“São três problemas: a desvalorização do real e do petróleo, o superfaturamento nos projetos revelado pela Lava Jato e a perda com os preços represados de gasolina e diesel para não afetar a inflação”, avalia Flávio Conde, analista da consultoria What’sCall. “Houve uma destruição enorme de valor, uma destruição da empresa. Na gestão Dilma, não há pontos positivos”, critica.

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