Petrobrás só não destruiu gravações a partir de agosto de 2014, diz ex-conselheiro

À CPI, o ex-membro do Conselho de Administração, Mauro Cunha, disse que estatal mudou orientação após deflagração da Lava Jato

Fábio Fabrini, O Estado de S. Paulo

01 de maio de 2015 | 18h53

Brasília - Em depoimento à CPI da Petrobrás na Câmara, o ex-integrante do Conselho de Administração da estatal Mauro Cunha, que deixou o cargo esta semana, disse acreditar que a companhia só mantenha gravações das reuniões feitas pelo colegiado a partir de agosto do ano passado. Questionado pelos deputados durante audiência, ele afirmou que a estatal adotava como prática destruir áudios e vídeos dos encontros do conselho. Porém, explicou que por conta de ações judiciais postas em curso em 2014, quando foi deflagrada a Operação Lava Jato, a orientação mudou.

Cunha explicou que os conselheiros decidiram preservar os registros que existiam em novembro passado, mas eles seriam de poucos meses. "Por força das ações judiciais, o conselho da Petrobrás decidiu manter os áudios que estavam pendentes, eu acredito que desde agosto de 2014", disse Cunha. O depoimento foi prestado na terça-feira, um dia antes de Cunha deixar o cargo de conselheiro. "Os áudios anteriores a esse período, provavelmente, não existem mais", acrescentou ele.

A CPI requisitou à estatal em março eventuais gravações de reuniões do conselho realizadas de 2005 a 2015, mas nenhum material foi entregue e a companhia não se pronunciou a respeito. Diante disso, a comissão ameaça pedir uma busca da Polícia Federal na sede da empresa.

Reunidos com deputados na última segunda-feira, 27, um dia antes do depoimento de Cunha, representantes Petrobrás não informaram que havia o procedimento de eliminar gravações. A prática foi admitida ao portal estadao.com.br, que publicou reportagem a respeito na quinta-feira.

Pasadena. Em resposta a pedidos feitos pelo Estadão por meio da Lei e Acesso à Informação, a Petrobrás alegou registrar as reuniões do conselho em áudio e vídeo, mas explicou que, após a formalização das atas desses encontros, os arquivos são destruídos. No material deletado, segundo a estatal, constavam as gravações de reuniões que aprovaram a compra da Refinaria de Pasadena, no Texas (EUA).

A presidente Dilma Rousseff era chefe da Casa Civil e presidente do colegiado quando foi aprovada a compra dos primeiros 50% da planta de refino, em 2006. O negócio, finalizado em 2012, provocou dano ao erário de US$ 792 milhões, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), que também fez questionamentos sobre as gravações no processo que apura os prejuízos.

Ao Estado, a estatal explicou que a destruição é prevista no Regimento Interno do Conselho de Administração, mas não apresentou o documento, alegando sigilo. Outros dois conselheiros, ouvidos na reportagem, explicaram que Petrobrás interrompeu o procedimento com a Lava Jato, pois isso poderia trazer problemas com investigadores.

Sem ter nenhuma informação da Petrobrás na terça-feira, 28, durante o depoimento do ex-conselheiro, os integrantes da CPI viram com reservas as declarações dele. Nesta quinta, 30, após a reportagem do estadão.com, a oposição anunciou que vai pedir na comissão uma perícia para verificar se, de fato, as gravações foram destruídas e se há a possibilidade de recuperar algum material.

 

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