Petrobrás coloca em xeque alertas de ex-gerente; governo defende Graça

Estatal diz que primeiros e-mails de Venina não eram explícitos sobre irregularidades em contratos; Cardozo e Temer dão apoio à presidente

Vinicius Neder , O Estado de S. Paulo

16 de dezembro de 2014 | 05h00

Rio - A Petrobrás e integrantes do governo agiram nesta terça-feira, 16, para tentar reduzir a pressão sobre a presidente da estatal, Graça Foster. A companhia divulgou nota oficial que coloca em xeque a versão segundo a qual Graça foi alertada por uma funcionária sobre irregularidades na estatal já a partir de 2009. Paralelamente, o vice-presidente da República, Michel Temer, e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, saíram em defesa da executiva, destacando que ela não é alvo direto de denúncias. Nenhum dos dois, porém, foi taxativo quanto à permanência dela no cargo.

No Palácio do Planalto, a ideia é manter Graça no cargo por ora. Mas setores do governo já admitem que sua substituição é inevitável e o novo presidente da estatal tem de ser do mercado. Não seria, portanto, funcionário de carreira, como Graça.

O comunicado desta terça foi o terceiro da Petrobrás desde que o jornal Valor Econômico revelou, na sexta-feira, que a ex-gerente executiva da Diretoria de Abastecimento da estatal Venina Velosa da Fonseca enviou e-mails a Graça nos quais teria apontado irregularidades na companhia. Ele foi divulgado a partir de um questionamento da Comissão de Valores Mobiliários (CVM, órgão que regula as empresas abertas no País).

Na nova nota oficial, a Petrobrás afirma que as quatro mensagens enviadas por Venina a Graça e ao atual diretor de Abastecimento, José Carlos Cosenza, em abril de 2009, agosto e outubro de 2011 e em fevereiro de 2012 “não explicitaram irregularidades relacionadas” nos gastos de comunicação na área de Abastecimento, em negociações de óleo combustível na Ásia e nas obras da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco.

Nos comunicados anteriores, a companhia sustentou que tomou todas as providências sobre os apontamentos de Venina, criando comissões internas de investigação. Nesta terça, porém, chamou esses apontamentos de genéricos. Na versão da Petrobrás, a primeira mensagem que de fato apontava irregularidades foi enviada apenas em 20 de novembro passado, “quando a empregada já havia sido destituída de sua função gerencial” - atualmente, Venina está em uma unidade da estatal em Cingapura; ela é aguardada no Brasil nos próximos dias para depor na Operação Lava Jato.

Conteúdo. Num dos e-mails que já vieram a público, de outubro de 2011, Venina escreve: “Técnicos brigavam por formas novas de contratação, processos novos de monitoramento das obras, melhorias nos contratos e o que acontecia era o esquartejamento do projeto e licitações sem aparente eficiência. Tarde demais para entrar em detalhes...”. No e-mail de 20 de novembro deste ano, o tom é mais explícito. Ela cita “um esquema inicial de desvio de dinheiro, no âmbito da Comunicação do Abastecimento”.

Nesta terça, a Petrobrás alegou que Graça respondeu a esse e-mail no dia seguinte, dizendo que as denúncias haviam sido encaminhadas a Cosenza e ao Departamento Jurídico da companhia, “para averiguação e adoção das medidas cabíveis”.

A nota da Petrobrás ainda defende Cosenza, que substituiu em 2012 o ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa, um dos principais integrantes do esquema que fez delação premiada e colabora com as investigações em troca de redução de pena.

Segundo a estatal, Cosenza recebeu de Venina, em maio de 2009, “sem comentários adicionais”, um e-mail reencaminhado. A mensagem original tinha sido enviada por ela a Costa. Nesse e-mail são citados “riscos das atividades de terraplenagem que poderiam acarretar incremento de custos e prazos do projeto” na Abreu e Lima. Segundo a Petrobrás, Venina não falava em desvios de recursos.

Em Brasília, o ministro da Justiça defendeu o atual comando da estatal. “Relativamente à direção da Petrobrás não temos efetivamente indicadores objetivos de práticas ilícitas”, disse. Indagado sobre o enfraquecimento político da presidente da estatal, Cardozo repetiu: “Não há nenhum ato ilícito que possa implicar juízo de valor”.

Em evento partidário no Rio, o vice-presidente da República defendeu Graça. “Não vejo nenhuma acusação formal em relação a Graça Foster.” Temer também não foi taxativo quanto à permanência da presidente da Petrobrás. “Seja qual for a medida a ser tomada, não será nada envolvendo os critérios pessoais de conduta, da lisura de Graça Foster.” / COLABORARAM TALITA FERNANDES, BEATRIZ BULLA, TÂNIA MONTEIRO e TIAGO ROGERO

 

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