Petista inclina-se por modelo chavista

Presidente exagera ao reclamar das vaias?

Flávio Aguiar *, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2005 | 00h00

Sim, há oposições que estão tentando um terceiro turno contra a vitória de Lula em 2006. É importante qualificar que tipo de oposição é essa, que fica em busca desse terceiro turno, que poderia se materializar numa falência do governo. Não há crise social no ar, além da crônica situação de má distribuição de renda no Brasil.O que há é uma crise política, uma crise de representação política, que atinge todo o sistema, mas sobretudo os partidos e setores de mídia conservadores. No Brasil a mídia não é espelho da política, ela faz parte da política institucional, seus jornalistas e arautos se comportam como tal. Arvoram-se com freqüência em promotores, juízes, meirinhos. Acusam, julgam, dão penas, depõem, repõem. Isto é assim pelo menos desde o fim do segundo governo de Vargas, em 54. No presente momento, as chamas da tragédia em Congonhas ainda queimavam, e já havia dizeres no ar e artigos acusando o governo de ''''assassino'''', interpretação que as primeiras investigações descartaram.Quem perdeu mais com a reeleição de Lula em 2006? Na esfera política em senso estrito, o ex-PFL, hoje DEM. Viu suas bases tradicionais serem atropeladas pelas políticas sociais do governo em todas as frentes.Ainda que mantendo governos importantes, o PSDB também perdeu. Perdeu o quê? Representatividade. Quem, ou o quê, representa hoje o PSDB? É difícil dizer com precisão. Mas o caso mais grave é o da mídia.A ''''teoria da pedra no lago'''', que sustentava a auto-imagem de muitos jornalistas conservadores, faliu em 2006. O lago revelou-se um copo d''''água. Seguiram-se torrentes de palavras iradas contra o povo, que não sabe votar, os pobres, os nordestinos, e assim por diante. Repetiu-se ad nauseam a falácia de que pobre (até com base em pseudo-interpretações de pesquisas) é mais condescendente com a corrupção.É desse universo, sobretudo, que parte essa tentativa de impugnar, pelo menos moralmente, o resultado das eleições de 2006. Não estamos diante de uma conspiração tradicional, que leve a um golpe tradicional. Mas sim de uma campanha, que desmoralize o governo e o impeça de governar.Potenciam-se os fatos negativos, minimizam-se os positivos. Vão dizer: com governos, na imprensa, é sempre assim. Mas nunca como neste, com tal sanha, com adjetivos tão pesados, como este de ''''assassino''''. Nem com tais agressões à pessoa do presidente.É verdade que nem sempre o governo se ajuda. Como no caso da crise aérea, é moroso em tomar decisões e atitudes. Quando as toma, é moroso em comunicá-las. Durante muito tempo teve uma política de marketing, não de comunicação. Suas hesitações pavimentam o caminho das acusações desqualificadoras.Este quadro pode mudar? Duvido. O jornalismo conservador vai continuar a tentativa de desqualificação do presidente. Na falta de programas alternativos, os políticos de oposição vão continuar correndo atrás do noticiário sensacionalista contra o governo. A mídia conservadora é que pauta a oposição, não o contrário. E o governo provavelmente vai continuar moroso, alimentando a fogueira em que seus adversários pretendem queimá-lo, como se dizia no jargão dos anos 60. Esperemos que mais uma vez, para consolidar a democracia, seja o povo quem de fato decida.*Pesquisador do Programa de Pós-Graduação de Literatura Brasileira da USP

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