Petista foge à regra dos líderes que evitam polêmicas

Em eleições anteriores,o candidato que estava à frente nas pesquisas dedicou menos esforços à propaganda negativa

O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2014 | 02h02

O que mais chama atenção no estudo coordenado pelo sociólogos Felipe Borba e Flávia Bozza, pesquisadores do Laboratório de Pesquisa em Eleições, Comunicação Política e Opinião Pública da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), é que Dilma Rousseff foi a primeira candidata de situação e líder nas pesquisas a utilizar 10% do seu tempo de TV para atacar os adversários. Trata-se de um índice alto.

Em 2006, quando reelegeu-se presidente, Luiz Inácio Lula da Silva usou apenas 2,5% do seu programa de TV para criticar os rivais. Em 2010, a então ministra Dilma Rousseff (PT), candidata ungida por Lula para suceder-lhe, usou 1,7% do seu tempo com propaganda negativa.

"Quem está na frente sempre ataca menos, mas este ano foi diferente. Dilma fugiu à regra e atacou muito mais que os líderes das eleições anteriores", diz Felipe Borba. Ele explica que o ataque é uma estratégia de alto risco que pode acabar se voltando contra quem a utiliza. "O eleitor é sensível ao ataque, sobretudo se não considerá-lo justo. Em geral, aceita-se melhor a crítica feita às propostas do que ataques pessoais", avalia o pesquisador.

Histórico. O estudo aponta ainda que as campanhas mais agressivas para o Palácio do Planalto feitas até hoje foram a de 1998, quando o Fernando Henrique Cardoso foi reeleito no 1.º turno contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Ciro Gomes (PPS), e o 2.º turno de 1989 entre Lula e Fernando Collor. Dezesseis anos atrás, 20% do tempo total do programa eleitoral foi utilizado com propaganda negativa contra FHC.

Já no 2.º turno de 1989, Lula e Collor juntos utilizaram 38,3% do tempo na TV com ataques mútuos. Naquele ano, Collor dedicou 47% do seu tempo a ataques contra Lula, que usou 30% do seu tempo no mesmo sentido.

O ponto alto foi a acusação, feita pela ex-mulher de Lula, Miriam Cordeiro, de que o candidato petista teria oferecido dinheiro para que ela abortasse a filha que tiveram juntos.

Vulneráveis. Segundo o pesquisador da Uerj, em campanhas à reeleição todas as críticas dos adversários ao governo são atribuídas ao candidato governante. "O presidente tem que prestar conta do governo e de si próprio, como candidato. Fica vulnerável a dois flancos de ataque", diz.

Entre 1989 e 2010, o líder das pesquisas foi o alvo principal - 91% do tempo gasto com ataques foram direcionados para o primeiro colocado. "As inserções de 30 segundo feitas de surpresa ao longo do dia são mais agressivas do que a propaganda dividida nos blocos de 25 minutos", diz o pesquisador.

Ele lembra que, apesar disso, o índice de reeleição no Brasil é altíssimo porque os candidatos governistas têm mais tempo de TV, a máquina pública em suas mãos e visibilidade espontânea do cargo.

Diante da perspectiva de uma disputa acirrada no 2.º turno entre Marina e Dilma, o pesquisador alerta que o ranking histórico pode ser modificado.

Regulamentação. O estudo feito pelos pesquisadores da UERJ mostra que as campanhas eleitorais brasileiras são mais positivas que as norte-americanas. "Aqui a propaganda é regulamentada e pode ser retirada do ar a qualquer momento pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Além disso, no Brasil, existe algo que não há nos EUA: o direito de resposta", diz Borba.

Entre 1989 e 2010, segundo o estudo, em média 87,7% do tempo dos programas eleitorais foram gastos com autopromoção dos candidatos, o que inclui exaltação, promessas e biografia. Segundo Borba, nas últimas eleições nos Estados Unidos, os candidatos utilizaram quase metade do tempo com ataques. / P.V. e L.V.

Os critérios do levantamento  

O levantamento considera ataque críticas que os candidatos fazem direta e indiretamente no horário eleitoral gratuíto de TV - sem levam em conta as inserções espalhadas pela programação. Não há distinção se os ataques são de caráter pessoal ou focados em propostas, desempenho de gestão ou históricos dos rivais. A defesa é quando o candidato faz referência a críticas que sofreu e apresenta sua versão. É considerado exaltação toda forma de autopromoção, o que inclui biografia, realizações, promessas e valorizações dos atributos pessoais.

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