Pesquisadores tentam desvendar 180 línguas indígenas

O Brasil tem uma população indígena de aproximadamente 300 mil pessoas, que falam 180 línguas. Pelo menos outras mil se extinguiram junto com seus usuários, nos últimos 500 anos. Estima-se que havia entre 3 e 5 milhões de índios no Brasil à época do Descobrimento. Para evitar que a extinção faça novas vítimas, pesquisadores do País se debruçam no trabalho de desvendar a comunicação dos primeiros habitantes do território brasileiro. Um dos maiores especialistas no assunto é o professor Aryon Rodrigues, co-fundador do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atualmente no corpo docente da Universidade de Brasília (UnB) coordena a pesquisa da língua xeta, falada por apenas três homens, e entendida por uma mulher, no Paraná. O professor explica que a xeta é uma variação do tupi guarani, mas diferenciada. Assim como Rodrigues, aproximadamente outros 70 pesquisadores brasileiros se dedicam a não deixar morrer parte da herança nacional. Eles se espalham entre pelo menos cinco universidades e dez centros de pesquisas. E tentam convencer novos discípulos a enfrentar a missão. Um dos trabalhos dos professores é orientar estudantes a fazer contato com tribos indígenas para pesquisar a língua. A pesquisa se dá em duas frentes. Na primeira, as línguas são documentadas, descritas e analisadas. O trabalho exige contato direto com os usuários, para que possam ser definidos os significados das palavras e a gramática. "O significado é a parte mais simples", revela Rodrigues. Ele diz que todo o processo utiliza metodologia científica. Mas para saber a que o termo se refere, os estudiosos lançam mão de recursos como apontar e desenhar o objeto. Na segunda fase da pesquisa, há a comparação e classificação do material coletado. No Brasil existem aproximadamente 20 dicionários de línguas indígenas publicados. Mas há outros registros. Alguns dialetos escaparam da extinção por conta de iniciativas de curiosos e interessados. Padre Anchieta é autor de um dicionário de tupinambá, falado no litoral norte do País, que usava para catequizar índios hoje extintos. Outro padre jesuíta produziu um documento no final do século 17 e garantiu a posteridade da língua kikiri, falada na Bahia. Há mais registros, que não de religiosos, como o do francês Jean D. Lery, que publicou um diálogo entre um tupinambá e um francês, com tradução para sua língua. Segundo o professor, alguns dialetos são completamente distintos, e há também os semelhantes, classificados em famílias, que somam aproximadamente 30. Elas supõem uma origem comum no passado, como o latim do português, francês e italiano, entre outras. A maior família é a tupi-guarani, com cerca de 40 línguas, 30 ainda faladas. O professor reconhece que, ao mesmo tempo em que pelo menos mil línguas desapareceram sem rastros, pode haver no País outras desconhecidas, não incluídas na lista de 180. É que na Amazônia vivem pelo menos 30 tribos que nunca fizeram contato com outras raças. O levantamento foi feito por meio de mapeamento aéreo. Não há perspectiva de aproximação com esses povoados. A Funai orienta para que os contatos forçados sejam evitados, recomendação elogiada por Rodrigues. "A maior parte dos contatos foi desastrosa. Entre dois e três anos depois, metade da tribo estava dizimada", comenta o professor. Para Rodrigues, o registro das línguas é uma maneira de manter viva a origem cultural do Brasil. "É conhecimento científico e humano que não pode desaparecer", defende. Ele lembra que a língua é o código no qual a cultura está expressa. O professor esteve hoje e ontem na Unicamp, participando de um encontro de línguas indígenas, que integra a programação dos 25 anos do IEL.

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