Pesquisador critica política de emissão de gases do Brasil

O Brasil mostra uma posição conflitante entre a política pública feita para emissão dos gases causadores do efeito estufa e sua posição frente aos demais países, segundo o pesquisador Luís Pinguelli Rosa, integrante da Fundação Coordenação de Projetos, Pesquisas e Estudos Tecnológicos (Coopetec), vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade de São Paulo (USP). "Nós não estamos entre os grandes responsáveis pela emissão, porém não há lógica em emitir mais se podemos lançar menos carbono na atmosfera. Mas, infelizmente, estamos aumentando nosso coeficiente de emissão", disse ele, hoje, durante o Primeiro Seminário do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, realizado no Memorial da América Latina, em São Paulo. O pesquisador disse que não havia necessidade do Brasil aumentar tanto sua emissão, o que aconteceu por falta de política interna. "E nós seremos cobrados por isso mais para frente", apontou. Ele comparou o problema com a crise energética. "Acharam que o mercado resolveria tudo, mas não resolve. No caso da energia, foi falta de política pública, e o mesmo se dá em relação à emissão do carbono", comentou. Segundo ele, o Brasil emitia pouco carbono para a atmosfera, mas passou nos últimos tempos a apresentar um crescimento de 15 a 20% na quantidade de carbono lançada anualmente na atmosfera. Pinguelli disse que entre outros fatores que contribuíram para essa elevação estão o aumento do uso da gasolina em detrimento do álcool combustível nos automóveis e a implantação de termelétricas. "Há um limite para o uso da hidroeletricidade, e temos de ir para as termelétricas, mas não dá forma como está sendo feito agora, de maneira intempestiva", criticou. O carbono está presente nos gases que são responsáveis pelo aumento da temperatura global do planeta, causando o efeito estufa. Ele é um fenômeno natural, que quando acontece de forma equilibrada, mantém a temperatura da Terra. A industrialização, no entanto, provocou um crescimento da presença desses gases, que absorvem e reemitem radiação infravermelha. Como conseqüência, há o aumento da temperatura do planeta. Para diminuir o problema, países integrantes da Convenção Mundial sobre o Clima elaboraram o Protocolo de Kyoto, que prevê que os países desenvolvidos sejam obrigados a reduzir em pelo menos 5%, se comparado aos níveis de 1990, a emissão de gases causadores do efeito estufa, no período de 2008 e 2012. O protocolo prevê diversas medidas para que o corte da emissão de carbono não prejudique o desenvolvimento dos países. Isso porque a matriz energética de grande parte dos países desenvolvidos e os que estão se industrializando se baseia em combustíveis fósseis, que possuem alta concentração de gases estufa. Entre as possibilidades do protocolo está o comércio das emissões, ou seja, ele dá permissão aos países industrializados para a compra e vende de seus direitos de emitir, através de certificações. O protocolo também prevê a realização de projetos que podem ser comprados ou vendidos entre os países que mais emitem. O terceiro instrumento é o mecanismo de desenvolvimento limpo (MDL), que busca reduzir as emissões e promover o desenvolvimento sustentável com o uso de "energias limpas", a serem feitas com verba vinda dos países industrializados, os maiores emissores de gases. O MDL foi o ponto central dos debates. As indústrias, ao fazerem um inventário, ou seja, registrar periódica e sistematicamente as emissões e o os recursos que ela têm para absorção dos gases causadores do efeito estufa (sumidouros), identificarão oportunidades. "A receita da venda dos certificados e a economia em energia aumentarão o custo-efetividade destas melhorias e as empresas brasileiras passarão a ter uma vantagem no mercado de MDL no futuro", destacou Emílio La Rovere, da Coopetec. Uma das alternativas apresentadas se trata de aumentar o número de árvores plantadas em troca de uma cota maior de emissão. As árvores consomem carbono para sobreviver, absorvendo o gás para a fotossíntese, num processo chamado de seqüestro de carbono. É o que prevê algumas termelétricas que devem se instalar no Brasil, uma solução paliativa importante, mas não suficiente. "Não há território para ficarmos plantando árvore. Teremos de plantar no mar, ainda mais se outros países quiserem também plantar no Brasil para poder emitir mais", ironizou Pinguelli. Para ele, o País tem uma grande oportunidade de desenvolver energias alternativas e resolver outras questões ambientais importantes. "Podemos trabalhar, por exemplo, com o lixo urbano para gerar energia, porque é uma alternativa viável", comentou. Ele acrescentou que o Brasil tem empresa que fabrica turbina para geração de energia eólica (que usa vento), mas terá de importar os geradores para as termelétricas. O pesquisador Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), ressaltou que as discussões em torno dos MDLs estão centralizadas apenas na questão energética, sem dar destaque maior ao problema das queimadas e do desmatamento. Manter as florestas nativas é um dos principais pontos do protocolo, já que a queima ou derrubada libera carbono para a atmosfera. "Para se manter a floresta em pé precisa de dinheiro", apontou. "Pelo tipo de desenvolvimento escolhido para a região amazônica, não há perspectiva de redução do desmatamento", alertou. Segundo Israel Klabin, da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), metade das emissões brasileiras vem de queimadas. Para Fábio Feldmann, secretário executivo do Fórum de Mudanças Climáticas, o principal objetivo do seminário foi alcançado. "Colocamos os temas sobre mudanças climáticas para a sociedade, já que tivemos um plenário com organizações não governamentais, pesquisadores e agentes políticos discutindo o assunto", afirmou. "Também vimos surgir propostas, como a do Brasil ratificar o protocolo junto com países como a China e a Índia, fazendo isso antes dos países industrializados, e o aproveitamento dos MDLs", destacou.

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