Pesquisa mostra "racismo camuflado" no Brasil

O racismo no Brasil fica mais evidente quando o brasileiro identifica o negro com seu papel social. A constatação, obtida por meio de pesquisa, é da psicóloga e professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, Ângela Fátima Soligo. A pesquisa serviu como base de sua tese de doutorado pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas, a 90 quilômetros de São Paulo. Para fazer a pesquisa, Ângela aplicou o questionário a 311 brasileiros, negros e brancos, com idade entre 16 e 55 anos, privilegiando a faixa de 18 a 25 anos. As questões foram respondidas em sete Estados: Paraíba, Sergipe, Bahia, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Paraná.Na pesquisa, a professora, ou colaboradores treinados, pediram aos entrevistados que atribuíssem dez adjetivos aos homens e mulheres negros. Nessa primeira fase, houve equilíbrio. Os pesquisados utilizaram adjetivos positivos para definir os negros, como competentes, alegres, fortes. Em seguida, eles foram estimulados a qualificar esses adjetivos, atribuindo-lhes características.O resultado final revelou que a maioria dos entrevistados, aí incluídos também os negros, limita-se a reproduzir os chavões sociais. O negro é alegre porque gosta de samba e Carnaval, forte porque se dá bem nos esportes e competente para trabalhos braçais. "Os entrevistados não foram além disso. Definiram a mulher negra como boa cozinheira e boa empregada doméstica. O adjetivo é positivo, mas o papel social ligado ao negro mostra um preconceito arraigado na nossa cultura", apontou a professora.Mesmo nas exceções, a regra se confirmou. "Houve um entrevistado que disse que o negro pode ser um advogado competente, mas apenas para livrar outros negros da cadeia, isolando-os à condição de bandidos e marginais", comentou Ângela. Ele reforçou a já conhecida tese de o brasileiro pratica o "racismo camuflado", na teoria diz que não tem preconceito, mas prefere limitar a raça negra a algumas categorias. "Não houve identificação do negro como intelectual ou político", afirmou.Os dados da pesquisa foram semelhantes em todos os Estados pesquisados, inclusive na Bahia. "Os brasileiros fazem de conta que não têm preconceito, mas vêem os negros sempre da mesma maneira", avaliou. Ela apontou que o modelo, a conduta e a história dos brancos são mais valorizados na sociedade. Com isso, os próprios negros acabam incorporando uma imagem negativa sobre sua raça.Para reverter esse quadro, Ângela indicou mudanças na formação das novas gerações, principalmente a partir das escolas e da mídia. "A mídia alimenta essa imagem à medida em que atribui sucesso ao negro apenas quando ele se dá bem em um grupo de samba ou como jogador de futebol", alegou. Ela estimou que o processo seja longo, mas disse que a curto prazo é preciso iniciá-lo. "As atitudes racistas podem ser inconscientes, mas reproduzem ações", apontou.Literatura - A professora percebeu reflexos do racismo inclusive entre os acadêmicos. Em suas pesquisas, descobriu que há pouca literatura científica disponível sobre o tema no País. "São poucas obras e muito recentes", disse. A escassez fez com que se sentisse estimulada a transformar seu projeto em livro, voltado para educadores.

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