Pesquisa mostra que não há troca de vírus HIV

Uma pesquisa inédita feita na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) põe em xeque um assunto que, até agora, parecia inquestionável: a possibilidade de alguém se contaminar, ao longo do tempo, por vários tipos de vírus da aids. O trabalho, coordenado pelo diretor do Laboratório de Retrovirologia da Unifesp, Ricardo Sobhie Diaz, indica que não há troca de agente infeccioso entre pacientes quando eles estão contaminados. "Acreditávamos que uma pessoa soropositiva poderia contrair outro tipo de vírus a qualquer tempo, dificultando o controle da doença", afirma o pesquisador. Para descobrir como o organismo se comporta nesse segundo contágio, Diaz e a pesquisadora Regina Partidini acompanharam dois grupos de soropositivos que, mesmo depois de infectados, compartilhavam seringas e agulhas. Os resultados surpreenderam os pesquisadores e, agora, a comunidade científica.Um dos grupos tinha cinco integrantes: três portadores do HIV do subtipo B, um portador do subtipo C, do sexo masculino que mantinha relações sexuais sem proteção com uma portadora de HIV do subtipo B. No outro grupo, havia também cinco soropositivos - um deles com vírus diferente dos demais.Usando técnicas de biologia molecular, pesquisadores analisaram os vírus de cada paciente, ao longo de três anos. A análise revelou que nenhum dos pacientes adquiriu um novo tipo de vírus nesse período. Os resultados são animadores para a ciência, mas não trazem nenhuma modificação nas recomendações feitas para soropositivos. Mesmo que não haja a superinfecção - como é chamada a contaminação constante por vários tipos de HIV - portadores do vírus devem continuar a manter práticas de sexo seguro e não compartilhar seringas, no caso de usuários de drogas injetáveis.Diaz explica o porquê: "Há o risco elevado de contrair outras DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) e hepatite. Essas infecções podem ativar o HIV do paciente e piorar seu estado de saúde." A boa notícia é que o trabalho traz fortes indícios de que o sistema imunológico humano cria anticorpos contra o vírus. "Até hoje, não havia nenhuma comprovação de que isso poderia ocorrer", observa Diaz. Essa reação, completa, é imprescindível para o desenvolvimento de vacinas antiaids.Hoje, 40 centros de pesquisa, espalhados pelo mundo, desenvolvem diferentes projetos para a criação da vacina. "Sempre pairou a dúvida sobre a real capacidade do nosso sistema imunológico em reconhecer e eliminar o vírus. Pelo trabalho, há indícios de que isso seja possível." Além da reação do sistema imunológico, Diaz afirma que há outra explicação possível para o fato de os soropositivos não terem adquirido outro subtipo de HIV. "O vírus recém-chegado tem de competir com o veterano para infectar a célula. Como estão em menor número, as chances dos vírus novatos são ínfimas."O estudo de Regina poderia, à primeira vista, ser considerado contraditório em relação a outro trabalho feito pelo grupo. Em 1994, Diaz participou do primeiro estudo relatando a existência de um vírus recombinante. Esse vírus, formado pela combinação de dois subtipos do vírus HIV, foi encontrado numa criança que havia recebido transfusão de sangue. No procedimento foram usadas duas bolsas de dois diferentes doadores contaminados pelo HIV. Depois desse caso, vários outros tipos de vírus recombinantes foram relatados. "Acreditamos que a infecção por dois vírus possa ser possível, mas somente quando a contaminação é simultânea." Diaz não sabe dizer qual seria o espaço de tempo em que a recombinação seria possível. "Em macacos, sabemos que há possibilidade de a contaminação simultânea ocorrer em até três semanas. Em humanos, não temos idéia."

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