Pesquisa aponta falhas em atendimento de aids

O atendimento dado nos Centros de Referência em Tratamento da Aids em São Paulo é falho e em muitos casos não oferece exame para detecção do vírus nem orientação sobre sexualidade.Essas são algumas das conclusões da pesquisa feita com mulheres portadoras do vírus HIV e divulgada nesta sexta-feira pelo Enhancing Care Initiative (ECI), um programa internacional que analisa e tenta melhorar o tratamento de pessoas com aids nos países em desenvolvimento, patrocinado pela Merck Foundation e coordenado pelo Instituto Harvard de Aids, ligado à universidade do mesmo nome.Foram entrevistadas 1.066 mulheres com ou sem filhos e mais 116 mães que deram à luz em 1998, atendidas em Centros de Referência de São Paulo, Santos e São José do Rio Preto."Para este último caso, escolhemos esse ano específico porque nessa época já era evidente o crescimento de novos casos da doença entre as mulheres, e a distribuição de medicação para evitar a transmissão mãe-filho já estava consolidada na rede pública de saúde", explicou o chefe da equipe brasileira do ECI, José Ricardo Ayres, professor da Faculdade de Medicina da USP."Queríamos verificar se o atendimento estava funcionando." Os números mostram que, pelo menos em parte, não.Das 116 mães pesquisadas, 20% só descobriram que estavam contaminadas depois que o filho nasceu. "Ou seja, elas não tiveram nenhuma orientação durante a gestação para que realizassem um teste para detecção do vírus", diz Ayres."Ficaram sabendo que eram soropositivas porque o filho apresentou sintomas da doença."Foi o que ocorreu com Simone Pereira, de 21 anos. Ela descobriu que tinha o HIV porque seu filho morreu de aids, aos três meses de idade. "Foi um choque", diz. "Eu desconfiava que meu marido me traía ou usava drogas, mas não pensei que tivesse aids."Outro dado alarmante da pesquisa é que, por falta de informação, 17% das mães amamentaram e mantiveram o risco de transmissão do vírus para o bebê.Muitas também ou não sabem que podem transmitir o vírus para o filho ou não dão importância a isso. Cerca de 43% sabiam que eram portadoras do HIV antes de engravidar. Das outras 1.066 pesquisadas, 28 (2,62%) estavam grávidas, e 143 manifestaram a vontade de ter filhos.O estudo mostrou ainda que mesmo aquelas que realizaram o teste não foram bem informadas. "Menos da metade (42,1%) foram orientadas antes de fazer o exame", conta Ayres."Além disso, 35% não receberam nenhuma orientação quando souberam do resultado positivo, 47,9% não entenderam o significado do teste de CDA (células de defesa), e 36,6% não sabiam o que era exame de carga viral."

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