Estadão
Estadão

‘Obscena desigualdade’ e ‘presidente disfuncional’ fragilizam Brasil em pandemia, dizem economistas

Em debate na Brazil Conference, Persio Arida e Eduardo Gianetti criticam a atuação de Jair Bolsonaro na crise do novo coronavírus

Bianca Gomes e Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2020 | 17h06
Atualizado 26 de abril de 2020 | 19h02

A grande população vulnerável do Brasil coloca o País em uma situação econômica muito frágil diante da pandemia do novo coronavírus, de acordo com o ex-presidente do Banco Central Persio Arida e o economista Eduardo Giannetti. Em debate virtual no painel de abertura da 6.ª edição da Brazil Conference at Harvard & MIT nesta quarta-feira, 22, ambos criticaram a atuação do presidente Jair Bolsonaro na crise.

O encontro, que neste ano tem parceria do Estado, é organizado pela comunidade brasileira de estudantes em Boston, nos Estados Unidos, para promover o debate entre líderes do País. Esta edição será toda realizada por meio de videoconferência por causa da pandemia. O Estado fará a cobertura exclusiva em suas plataformas.

O debate entre os dois economistas tratou da situação econômica do Brasil diante da crise mundial desencadeada pela covid-19. “A obscena desigualdade social fragiliza o Brasil em uma situação como essa”, defendeu Giannetti. Para ele, o contexto de 40 milhões ou mais de brasileiros sem situação regular de emprego dificulta o acesso às políticas de suporte social. “O governo muitas vezes não tem nem como chegar a essas pessoas, pois elas não têm uma existência na vida civil. É um complicador no momento em que precisamos transferir recursos para grupos sociais vulneráveis.”

Persio afirma que temos hoje um Estado “gigante” e “disfuncional” que promove desigualdades. “Como ele faz isso? Nas diferenciações de regimes tributários, pelos elevadíssimos salários do setor público.” Para ele, o governo Bolsonaro não tomou medidas essenciais para reduzir a desigualdade antes da crise. Reforma tributária, reforma administrativa e abertura comercial foram pontos críticos citados pelo ex-presidente do Banco Central que devem ser feitos no País para mudar esse cenário. 

Assista abaixo

A atuação do executivo federal também é uma fragilidade para o País em meio à pandemia, afirma Giannetti. “Temos um governo disfuncional. Um presidente que manda sinais completamente contrários ao que é o comportamento correto e que está em conflito aberto com outras instancias da república”, afirma o economista. Ele criticou ainda o esvaziamento do ministério da Saúde, após demissão do ministro Luiz Henrique Mandetta, que tornou a pasta “completamente inoperante e sem conhecimento do que fazer”.

O debate entre os dois economistas tratou da situação econômica do Brasil diante da crise mundial desencadeada pela covid-19. O encontro virtual é o painel de abertura da 6ª edição da Brazil Conference at Harvard & MIT, evento que conta com a parceria do Estado.

Persio defendeu que o atual governo tem sido “uma tragédia na área da educação” e toma medidas que prejudicam a produtividade do País, dois aspectos indispensáveis para o crescimento. Além disso, ele criticou o governo por ainda não ter enviado ao Congresso as propostas de reforma Administrativa e Tributária.

SubTrump

Durante a sua fala, Giannetti se referiu ao presidente da República, Jair Bolsonaro, como “SubTrump”, em referência ao alinhamento ideológico entre o mandatário e seu correspondente norte-americano, Donald Trump.

Para o economista, a reação de Bolsonaro e Trump no primeiro momento da pandemia foi “igualzinha”, exemplo do mesmo “negacionismo” que eles praticam em relação à mudança climática. A diferença, no entanto, se deu no desenrolar da crise. “Trump foi muito mais ágil em mudar a sua posição do que o nosso ‘Subtrump’”. 

Dívida pública

A sustentabilidade da dívida pública brasileira deve ser um tema que virá com força após a pandemia do novo coronavírus, avalia Giannetti. Segundo ele, o Brasil estava começando a ter mais estabilidade, após a reforma da Previdência e de um esforço para conter o gasto público que começou no governo de Michel Temer.

“Infelizmente, dado o imperativo de gasto público e a queda de arrecadação, ambos produzidos pela pandemia, vamos ter, novamente um saldo grande de endividamento público. A preocupação e apreensão não devem ficar apenas para o futuro, mas desde já, na percepção de que essa dívida pode não ser sustentável.”

Além do portal estadao.com.br, é possível acompanhar os painéis nas redes sociais Twitter (@estadao) e Facebook (facebook.com/estadao) e no canal do Estado no YouTube (youtube.com/estadao).

Veja a programação confirmada

23/4

Papel do Estado, às 19h

Qual o papel do Estado no combate aos efeitos da crise atual?

Ana Paula Vescovi, Laura Carvalho, Flavia Piovesan e Flávia Oliveira (moderação)

25/4

Hack Brasil - Competição de startups da Brazil Conference, às 10h; Como parte desse evento, teremos a seguinte sessão

Ambiente de startups no Brasil, às 11h

Mate Pencz (Loft), Luiz Ribeiro (General Atlantic) e Santiago Fossatti (Kaszek, moderação)

27/4

Desigualdade, às 19h 

Covid-19 e a desigualdade econômica no Brasil

Luciano Huck, Felipe Rigoni e Kátia Maia

28/4

Política Externa, às 19h

Política externa do Brasil: presente e futuro

Aloysio Nunes, Celso Amorim, Celso Lafer, Hussein Kalout, Rubens Ricupero e Vera Magalhães (moderação)

1º/5

Programa de Embaixadores Brazil Conference, às 17h

10 jovens brasileiros com projetos de impacto social selecionados pela conferência serão entrevistados por Pedro Bial

5/5

Como nos tornarmos um Estado reformista?, às 19h

Rodrigo Maia, Paulo Hartung, Marcos Mendes e Eliane Cantanhêde (moderação)

7/5

Os desafios dos Estados na Crise, às 19h 

João Doria (SP), Helder Barbalho (PA) e Renato Casagrande (ES) e Andreza Matais (moderação)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.