Miraflores Palace / Handout via Reuters
Miraflores Palace / Handout via Reuters

Perguntas e respostas sobre o Foro de São Paulo

Especialista explica ao Estado o que é a reunião, alvo de críticas dos apoiadores de Bolsonaro e que esse ano ocorre na Venezuela

Vinícius Passarelli, especial para O Estado

25 de julho de 2019 | 15h02

Alvo constante de críticas de bolsonaristas, o Foro de São Paulo inicia a sua 25ª edição anual nesta quinta-feira, 25, em Caracas, na Venezuela. Criado em 1990, o evento ocorreu pela primeira vez no hotel Danúbio, em São Paulo, e reúne os principais partidos e movimentos de esquerda da América Latina

Na última segunda-feira, o presidente Jair Bolsonaro foi ao Twitter para criticar a reunião. “Membros do Foro de São Paulo, criado por Fidel Castro, Lula, FARC, entre outros partidos de esquerda e facções criminosas com objetivo de dominar a América Latina, se reúnem em Caracas para discutir seu projeto de poder totalitário”, escreveu o presidente. 

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, também criticou o evento no microblog, dizendo que o Foro de São Paulo é formado por “marxistas instrumentalizando traficantes e vice-versa" e que as denúncias do site The Intercept Brasil contra a Lava-Jato "fazem parte de sua estratégia".

Na edição deste ano, o Brasil terá uma delegação com 25 pessoas, mas não contará com a presença dos principais líderes de seus partidos de esquerda, como a presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), Gleisi Hoffmann. 

Para entender o que é  o Foro de São Paulo e quais são seus objetivos, o Estado fez perguntas ao doutor em Relações Internacionais e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), Lucas Leite. Para ele, o encontro sempre foi algo mais simbólico do que um definidor de iniciativas e muito do que se fala sobre ele é “teoria da conspiração”. 

O Foro de São Paulo é alvo constante de ataques de bolsonaristas. O próprio presidente costuma criticar o evento. Nessa semana ele afirmou que o encontro é feito para “discutir um projeto totalitário para a América Latina”. O que é o Foro de São Paulo e qual é seu objetivo?

O Foro de São Paulo foi criado em 1990 como um movimento em relação a uma série de acontecimentos no plano principalmente internacional, mas também no plano doméstico dos países da América Latina. Havia o final da União Soviética, um momento em que os partidos e os movimentos de esquerda se buscavam se reinventar e definir quais seriam suas diretrizes e objetivos. Então o objetivo do Foro de São Paulo era fazer um contraponto direto às políticas neoliberais, representadas pelo FMI, pelo Banco Mundial, que previam privatizações, uma diminuição do Estado, um controle de capital privado sobre uma série de instituições nacionais, o chamado Consenso de Washington.

A esquerda buscava políticas de atuação para chegar ao poder ganhando eleições, de forma democrática, e garantir, portanto, uma via diferente de inserção econômica e uma integração regional, algo que a partir da década de 2000 vai ter impactos empíricos, com a chamada "onda rosa", quando vários partidos de esquerda começam a ganhar eleições na América Latina.

Mas se formos pensar em termos de construção de atuação, o Foro de São Paulo como bloco, como um lugar de gerar iniciativas, de definir pautas, com eficácia a atuação política, sempre foi muito mais simbólico, de uma busca da esquerda de uma movimentação comum.

Como mostrou o Estado, o encontro deste ano não contará com a presença dos principais líderes dos partidos de esquerda do Brasil. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, pela primeira vez desde que assumiu o comando da sigla, não participará da reunião. O Foro de São Paulo está esvaziado atualmente? Qual é a importância que o evento já teve e qual tem hoje?

Os países da América Latina vão entrar numa crise muito grande no final da década de 90 e os partidos de esquerda começam a adotar outros discursos, se reorganizar. Ou eles vão para uma linha mais identitária, étnica e nacionalista, como é o caso do Evo Morales, na Bolívia, do Rafael Correa, no Equador, e do Hugo Chávez, na Venezuela, ou para uma linha mais centro-esquerda, social-democrata, fazendo acordos, buscando o consenso e um desenvolvimento econômico dentro do capitalismo, mas que leva em conta a desigualdade social, que é muito o que o Lula em sua "Carta ao Povo", em 2002, quando se elegeu.

Nesse momento, o fórum em si já não serve para muita coisa. Não é que ele foi esvaziado agora ou antes, ele é justamente o que o nome diz, é um foro. Os líderes gostam de participar, é como se fosse um congresso de pessoas que pensam mais ou menos igual, que têm objetivos comuns, mas nunca foi nada além disso. Muito do que se coloca para além dessas questões são teorias conspiratórias. 

Até que ponto o Foro de São Paulo influencia nas diretrizes e agendas dos partidos de esquerda dos diferentes países que participam dele?

É muito difícil falar de uma influência direta do Foro de São Paulo em diretrizes e agenda dos partidos de esquerda. Até porque, se olharmos até nas diretrizes desses partidos, eles são completamente distintos. Mesmo quando a esquerda estava no poder, conseguiram criar instituições como a Unasul aqui na região e ainda assim não foi consenso, foi difícil, foi um processo de negociação, teve visões distintas, partidos de esquerda em geral viam a Unasul de forma diferente. Venezuela olhava de um jeito, o Brasil de um outro.

Ao mesmo tempo, o Brasil era visto de uma forma muito positiva pelo governo Bush, que era um governo conservador nos EUA, porque o PT era um partido de centro-esquerda que se contrapunha em alguma medida à Venezuela do Chávez, não era um país que concordava com o que era colocado ali. Hoje e antes é um movimento simbólico, é um movimento muito mais de marcar presenças, de reafirmar objetivos e interesses comuns. No Brasil, praticamente todos os partidos de esquerda fazem parte do Foro de São Paulo.

Se pegarmos o PT e o PDT, que tem representações muito diferentes, nós já percebemos as diferenças, que são gritantes. No caso da Venezuela também não faz muito sentido pensar no caso de um fórum que consegue alinhar os interesses, porque o partido do Guaidó, que é o opositor apoiado pelo Bolsonaro, pela Colômbia e EUA, faz parte da Internacional Socialista, ou seja, é um partido de esquerda. As coisas não são tão simples assim. O Foro de São Paulo é muito mais amplo, é uma coisa muito aberta, não tem nada objetivo nesse sentido. 

O Grupo de Lima também criticou o Foro de São Paulo, condenando “fóruns e movimentos que atuam em defesa do regime ditatorial ilegítimo de Nicolás Maduro”. O Foro de São Paulo representa uma frente de defesa importante para Nicolás Maduro?

Não. Essa frente de defesa hoje está muito mais colocada para atores externos - como a Rússia e, em menor medida, a China - do que necessariamente os países da região. O único país da região que poderia de fato representar algum tipo de contraponto mais forte aos interesses americanos na Venezuela ou até ao próprio Guaidó seria o Brasil, e o governo Bolsonaro não faz isso. O que nós perdemos nesse caso é justamente a capacidade de articulação.

O Brasil, quando toma um lado, coisa que no geral nunca fez, perde a oportunidade de se colocar como mediador, já que outros atores começam a ocupar esse espaço. Se nós apoiamos uma decisão que vem dos EUA de uma forma totalmente unilateral, simplesmente acatando sem pensar criticamente no que isso significa para os interesses brasileiros, o Brasil deixa de ser ouvido no processo da constituição da paz aqui na região em relação à Venezuela e perde seu protagonismo.

É quase uma defesa intransigente de interesses de outros países e de uma agenda ideológica do presidente Bolsonaro. Essas acusações de uma união dos países a partir de uma visão socialista, que os partidos de esquerda têm um projeto totalitário para a região, não fazem o menor sentido. Isso é de quem não tem o interesse em entender o que são esses movimentos, quais são os posicionamentos geopolíticos regionais e extra-regionais do mundo hoje e joga para a plateia. É a perpetuação da campanha, em falar para o seu nicho de eleitores, pessoas que concordam com esse tipo de discurso fácil e que não tem embasamento teórico e empírico.

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