Perfis fictícios já promovem prefeito e Russomanno

Versão paulistana da tendência iniciada em 2010 com Dilma Bolada tem Haddad Tranquilão e Russo - O Mano

RICARDO CHAPOLA, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2015 | 02h01

SÃO PAULO - Diante de um ambiente político conflagrado que chega a exibir demonstrações de ódio, o humor torna-se arma para conquistar corações de eleitores antes mesmo do início das campanhas propriamente ditas. A fim de ajudar políticos com os quais têm ligação ou simpatia, internautas criam personagens fictícios para parodiar e dar uma forcinha a seus futuros candidatos.

Esse tipo de abordagem virou uma tendência, segundo especialistas, após o surgimento de Dilma Bolada - perfil criado em 2010 por um publicitário carioca para satirizar a presidente Dilma Rousseff e que possui atualmente 1,6 milhão de seguidores. Em 2016, com as eleições municipais, o eleitor paulistano será capaz de sentir mais de perto o efeito Dilma Bolada na internet.

A disputa municipal ainda não começou, mas já há personagens dentro e fora do campo político. O prefeito Fernando Haddad (PT) e o deputado Celso Russomanno (PRB) são dois nomes já "homenageados" com perfis fakes no Facebook. Tratam-se de Haddad Tranquilão, com mais de 120 mil seguidores, e Russo - O Mano, com mais de 7 mil curtidas.

"Essa estratégia existe desde a Dilma Bolada. Ela serve tanto para fazer campanha para determinado candidato, quanto para uma eventual defesa que ele precise fazer. E isso tudo de uma forma bem humorada, diferente de como seria se fosse só um militante ou um simpatizante", diz o presidente da Associação Brasileira de Consultores Políticos (ABCOP), Carlos Manhanelli. "Haddad Tranquilão e Russo - o Mano estão fazendo campanha subliminarmente. É um trabalho subliminar."

O perfil Haddad Tranquilão no Facebook é administrado por jovens ligados ao PT. O publicitário Léo Casalinho, 26, e o turismólogo Pedro Barciela, 25, criaram o personagem durante as eleições de 2012 e alimentam até hoje a página com conteúdo sobre a gestão do petista fornecido pela Prefeitura.

"A gente tem postado sobre a gestão e com isso conseguimos mais 40 mil seguidores. Do fim da eleição de 2014 até agora, ganhamos mais 50 mil. A gente faz o que a Prefeitura não faz. Pessoas de lá procuram a gente e pedem para divulgar as ações do prefeito", diz Casalinho. Ele afirma nunca ter sido pago por isso.

Simpatizante. A página de Russo - O Mano também é controlada por publicitários. Marcio Mattos tem 37 anos e decidiu criar o personagem no início deste ano, em parceria com um amigo que se identifica por "vovô". Mattos é simpatizante de Russomanno e diz ter votado nele em 2012, quando o deputado disputou a Prefeitura. O publicitário afirma também que faz o trabalho de graça. "A gente é independente, a gente quer ser independente. E se um dia o Russomanno pisar na bola a gente vai fazer piada dele também, como a gente já fez algumas vezes", diz Mattos.

"Eu sou um cara que gosta de terceira via. As pessoas de terceira via têm alguma coisa a ver comigo." Mattos afirmou ao Estado ter trabalhado na campanha do ex-governador Eduardo Campos (PSB) à Presidência no ano passado. Após a morte de Campos, em agosto, o publicitário integrou a equipe de campanha de Paulo Skaf (PMDB) ao governo paulista.

Propaganda. A legislação veta a propaganda eleitoral antecipada. Segundo o especialista em direito eleitoral Augusto Aras, qualquer ação que tenha como propósito a cooptação de votos caracteriza propaganda antecipada. O problema, segundo ele, é que tais ações geralmente são sutis, e não explícitas. "Precisa ter cooptação de votos para ter propaganda eleitoral antecipada. Mas ela pode acontecer de forma disfarçada. Outro problema é que não existe controle efetivo."

Além de trabalhar dando publicidade à gestão de Haddad, Barciela criou o perfil "Matarazzo das Elite", para fazer piadas com o vereador Andrea Matarazzo (PSDB), potencial adversário do petista em 2016. A sátira ao tucano tem só 183 seguidores. Outros possíveis candidatos, como a senadora Marta Suplicy (sem partido), ainda não têm personagens fictícios ativos nas redes sociais.

 

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