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Perfil Henrique Meirelles: Do Banco Central à Fazenda, ele é o favorito do Mercado

Principal nome do Ministério Temer, Meirelles chegou a ser cotado para ser vice de Dilma Rousseff

Fernando Dantas e Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2016 | 04h17

Ambição é o que não falta a Henrique Meirelles, o futuro ministro da Fazenda de Michel Temer. Com uma carreira de destaque no sistema financeiro, onde chegou a presidente internacional do BankBoston, o goiano de Anápolis atingiu relativamente cedo o alto do pódio de sua bem-sucedida trajetória no setor privado e naturalmente suas atenções se voltaram à vida pública, como presidente do Banco Central de 2003 a 2010, e aos sonhos de uma carreira política.

Agora, depois de quase cinco anos e meio afastado do governo, Meirelles volta para assumir a economia brasileira na pior recessão desde a década de 1930 e num governo de transição, cuja força para fazer as reformas apontadas pelos economistas como necessárias ainda precisa ser testada.

“Meirelles vai ter de escolher bem as prioridades, que têm de ser importantes e viáveis politicamente”, diz Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos.

A tarefa principal é fazer um ajuste fiscal maior do que qualquer outro pelo qual o Brasil tenha passado em décadas. Nas contas do mercado, algo entre 4% a 6% do PIB, ou de aproximadamente R$ 250 bilhões a R$ 350 bilhões. A estratégia terá de combinar extrema dureza, para fazer o máximo possível de esforço fiscal no primeiro momento, e habilidade política extraordinária para passar duras reformas de restrições de direitos num horizonte apenas um pouco maior. O futuro ministro da Fazenda já defendeu, após ser indicado por Temer, limites legais ou constitucionais da trajetória do gasto público.

Meirelles também terá de ser enérgico em tocar uma ampla agenda positiva, que vai da complicadíssima reforma tributária a um plano vigoroso de concessões e privatizações. Sua visão liberal e ortodoxa deve agradar ao mercado e aos investidores e pode ajudar a resgatar a confiança e a dar credibilidade a suas iniciativas.

Para dar conta de todas essas missões, os mais otimistas veem em Meirelles uma combinação de qualidades que lhe confere alguma chance de êxito. De forma resumida, um estilo eficaz de liderança, que reúne a habilidade de formar equipes competentes com grande capacidade de comunicação, negociação e persuasão na defesa dos seus pontos de vista dentro do governo. O ex-presidente do BC tem à disposição um “pool” de talentos para tentar recrutar, já que, de maneira geral, seus ex-chefiados guardam boa impressão dele e, especialmente, da combinação de autonomia de trabalho técnico com proteção contra as pressões políticas que Meirelles busca prover.

Veia política. Apesar do perfil bem-acabado de executivo do setor financeiro, Meirelles tem sangue político, tendo participado do movimento estudantil e sendo neto de um prefeito de Anápolis e sobrinho de um ex-governador. Seu pai foi secretário do governo estadual. Dessa forma, foi até um desvio de roteiro quando, em 12 de dezembro de 2002, o recém-eleito presidente Luiz Inácio Lula da Silva o convidou para ser presidente do Banco Central (BC). Meirelles acabara de ser eleito deputado federal de Goiás pelo adversário PSDB, com 183.046 votos – a maior votação para a Câmara Federal de seu Estado. Na época, declarou: “Volto para meu hábitat, que é o setor financeiro. Renuncio à minha curta carreira política”.

Não era uma afirmação para ser tomada ao pé da letra, como viria a ficar claro mais tarde. De qualquer forma, Meirelles quase sempre teve a inteligência de separar sua trajetória pública na área técnica de sua sonhada – e até hoje ainda por se realizar – carreira política. Assim, de 2002 a 2010, como presidente do BC nos dois mandatos de Lula, ele construiu uma sólida reputação de gestor competente, que encarou grandes desafios e saiu vitorioso na maior parte das vezes. O sucesso no setor privado migrou para o setor público.

Sua missão inicial como presidente do BC, no início do primeiro governo Lula, era intimidante. Durante a campanha eleitoral, a perspectiva de vitória do candidato petista, com o histórico de defesa pelo partido de políticas econômicas irresponsáveis, levou o País a uma das piores crises desde a redemocratização. O dólar disparou para níveis impensáveis à época e muitos na comunidade financeira internacional passaram a considerar que o Brasil estava à beira do calote.

Meirelles não superou sozinho a crise de largada do governo Lula. O ex-presidente deu passos hábeis e fundamentais, como a tranquilizadora “Carta ao Povo Brasileiro” e a anuência às condições de mais uma rodada de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Além disso, foi decisivo o papel do ministro da Fazenda Antônio Palocci, que chamou respeitados economistas ortodoxos (como o ex-ministro da Fazenda, Joaquim Levy) para comandar sua equipe. Palocci deixou claro ainda que a política econômica reafirmaria e aprofundaria as diretrizes liberais e de responsabilidade fiscal herdadas de Fernando Henrique Cardoso.

Fase de ouro. Mas a atuação de Meirelles à frente do BC também foi parte fundamental do ótimo início do governo Lula na área econômica, que consolidaria as precondições para a fase de ouro de 2004 a 2010, cuja breve interrupção pela crise global de 2008 e 2009 só reforçou a ideia da resiliência e vitalidade da economia brasileira à época.

O então presidente do BC enfrentou turbulência desde os primeiros dias de seu mandato. Na sua primeira reunião do Copom, em 22 e 23 de janeiro de 2003, a Selic foi elevada de estratosféricos 25% para 25,5% e Meirelles ficou perturbado por informações (segundo reportagem de Clovis Rossi, do jornal Folha de S. Paulo) de que pedira “autorização” a Lula para a alta dos juros. No Fórum Econômico Mundial de Davos, onde estava quando o imbróglio se desenrolou, o presidente do BC teve o azar adicional de sofrer uma séria fratura na perna ao escorregar no pavimento coberto de gelo da pequena cidade alpina.

A partir de 2006, quando Guido Mantega substituiu Palocci no Ministério da Fazenda, a harmonia liberal e ortodoxa da equipe econômica inicial de Lula aos poucos se desvaneceu. Mantega, de forma muito lenta no início, mas que se acelerou pouco a pouco, pôs em marcha o desvio heterodoxo em relação à política econômica de 1994 a 2005. Mais tarde, a aposta seria muito aumentada com a crise global, acabando por desembocar na desastrosa “nova matriz econômica” do primeiro mandato de Dilma Rousseff.

A relação entre Mantega e Meirelles, portanto, nunca foi confortável. No extremo, houve uma reportada tentativa de substituí-lo na presidência do BC por Luiz Gonzaga Belluzzo, que, de acordo com os que narram a história, foi abortada no último minuto pela deflagração da crise global.

Meirelles não era um especialista em política monetária, uma atividade mais tipicamente de economistas – sua formação é em Engenharia e Administração. O que ele fez, portanto, foi montar uma equipe de alto nível, buscando os melhores nomes disponíveis na academia e no mercado para compor a diretoria do BC e participar do Copom. A partir daí, Meirelles usou seus indiscutíveis dons de comunicação e a forte presença de sua personalidade para garantir espaço para sua equipe trabalhar e, à medida que foi se familiarizando com as questões de política monetária, liderou com habilidade o grupo.

Em 2004, ele cobrou e obteve status ministerial para a presidência do BC. É verdade que a motivação básica teria sido obter foro privilegiado para se proteger de acusações de sonegação fiscal (às quais respondeu detalhadamente). Ainda assim, a concessão mostra que Meirelles sabe se impor no jogo da política.

O mais importante é que ele tem resultados sólidos para exibir. Tendo herdado um IPCA de 12,53% em 2012, o BC de Meirelles levou a sério os objetivos do sistema de metas e com uma política monetária dura conseguiu – com algumas oscilações – levar o índice para 3,14% em 2006, a única vez em que a inflação fechou o ano abaixo da meta (de 4,5% e que se mantém até hoje) desde o início do regime, em 1999. Há alguma polêmica sobre se o BC demorou para reduzir a Selic depois que a crise global foi deflagrada em setembro de 2008, mas, do ponto de vista da maior parte dos analistas, mais duvidoso é se Meirelles teria relaxado por razões políticas a administração dos juros no final da sua gestão, quando foi cotado para ser vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff.

De qualquer forma, uma visão geral do período de Meirelles à frente do Banco Central é amplamente positiva, e não apenas em termos de política monetária. Ele bancou também a política de acumulação de reservas internacionais no tempo de entrada vigorosa de capitais internacionais, um trunfo que foi fundamental para evitar que a atual crise econômica fosse ainda mais terrível.

Setor privado. Em 2012, Meirelles passou a comandar os negócios do grupo J&F, dono da gigante Friboi e de marcas como a Alpargatas. Agora em março, deu sua última cartada no setor privado: o projeto de aumentar o número de clientes do pequeno banco Original, do J&F, de 100 mil para 2 milhões em apenas uma década.

Por outro lado, desde que saiu do BC em 2010, Meirelles nunca deixou de fazer política e permaneceu próximo de Lula – uma boa pergunta é se o ex-presidente poupará em alguma medida seu antigo colaborador, agora que o PT promete uma oposição ferrenha ao governo Temer. Já em relação a Dilma, a péssima química entre ela e Meirelles a levou a rejeitá-lo como vice, a se recusar a mantê-lo na presidência do BC a partir de 2011 e a não aceitar a sugestão de Lula de colocá-lo na Fazenda em 2015.

Sem cargo no setor público e na iniciativa privada, Meirelles aceitou em 2011 ser o chefe do Conselho Público Olímpico depois de um longo rearranjo político, sendo substituído em junho do ano passado pela empresária Luiza Trajano. Na vida partidária, ele trocou o PMDB pelo PSD de Gilberto Kassab e o título eleitoral de Goiás para São Paulo.

O ex-presidente do BC chegou a ser cogitado recentemente para disputas da Prefeitura de São Paulo e do Senado, mas tramas da política acabaram inviabilizando as duas possibilidades. Agora, porém, tudo isso parece menor diante da chance de ser bem-sucedido em tirar o Brasil de uma das mais graves crises econômicas de sua história. Se acertar, apostam observadores que o conhecem bem, o goiano de Anápolis pode voltar a nutrir a maior de suas ambições: chegar um dia à Presidência do Brasil.

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