Perfil de operadores mudou; ação é parte de 'facilidades' bancárias

Procuradores da Lava Jato não descartam abrir investigações sobre a ação dos bancos, numa futura etapa da operação

BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2015 | 02h04

De meros operadores do mercado clandestino de câmbio, doleiros ascenderam nos últimos anos a parceiros de bancos internacionais na tarefa de ocultar fortunas obtidas do desvio de recursos públicos e outros crimes.

Filiais de várias instituições financeiras no Brasil, entre elas as suíças, mantêm áreas de private bank especializadas em constituir offshores para empresários, o que permite esconder a titularidade das contas. Elas próprias indicam o doleiro ao cliente, que se encarrega de facilitar o envio do dinheiro a ser aportado no exterior.

"Não é uma pessoa do submundo, do esgoto. O perfil mudou e o doleiro nem quer mais ser chamado de doleiro. É alguém que fala direto com o mandachuva do banco", afirma o delegado da PF Luís Flávio Zampronha.

A tarefa de fisgar milionários para esse mercado é dada a representantes de luxo no Brasil. Cabe a eles circular pelas rodas da elite econômica à caça de clientes, em troca de gordas comissões. "O criminoso não quer saber de taxas, de opções de investimento. Quer privacidade. E só", conta Zampronha.

A prática de captar bem-nascidos no Brasil para abrir contas lá fora é proibida pelo Banco Central, mas já foi identificada em várias investigações da PF e do Ministério Público Federal. "Só a abertura da offshore é, em si, algo que foge do padrão", afirma o procurador da Operação Lava Jato Deltan Martinazzo Dallagnol.

A oferta de "facilidades" bancárias também foi detectada na Lava Jato. Uma das estratégias mais usadas para esconder o dinheiro de propinas pagas na Petrobrás era abrir contas fora do País em nome de offshores. Outros tipos de "produto" foram identificados, como mascarar o nome de depositantes de quantias vultosas.

Os procuradores da Lava Jato não descartam, numa etapa futura, a abertura de investigações sobre a atuação dos bancos.

Vaivém. Quem envia dinheiro ao exterior quer usá-lo. Em muitos casos, isso inclui trazê-lo de volta ao Brasil com aparência de recurso legal. Na Lava Jato, conforme denúncia apresentada à Justiça, o ex-diretor Nestor Cerveró abriu uma offshore no Uruguai e a usou para comprar um apartamento de luxo no Rio de Janeiro. Ele se instalou no imóvel e simulou o pagamento de um aluguel cujo valor era incompatível com o de mercado.

Outra estratégia é, após tirar o dinheiro ilegal do País, simular um empréstimo ou investimento de uma empresa estrangeira numa nacional e, na realidade, ambas têm o mesmo dono.

Há ainda quem carregue cartões pré-pagos (gift cards) no exterior e traga no bolso altas quantias de dinheiro sem chamar a atenção. / F.F. e A.M.

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