PERFIL-Beltrame, o nome por trás do combate ao crime no Rio

Treze policiais foram presos esta semana no Rio de Janeiro por revenderem ao tráfico armas e drogas apreendidas pela polícia em operações em favelas, em mais um caso emblemático de homens da lei que mudam para o lado do crime e denigrem a imagem da polícia na cidade famosa por suas belas paisagens e pelo perigo de se visitá-las.

PEDRO FONSECA E RODRIGO VIGA GAIER, REUTERS

14 de dezembro de 2011 | 18h28

Desde cobrança de propinas de motoristas alcoolizados à formação de esquadrões da morte que controlam comunidades carentes, a polícia do Rio tem um amplo histórico quase diário de casos de crimes e corrupção que colaboraram para fazer da cidade uma das mais violentas do mundo nos últimos anos, inclusive diminuindo o papel do município como importante centro de negócios brasileiro.

O gaúcho de sotaque acentuado José Mariano Beltrame, 54, delegado da Polícia Federal sem qualquer ligação passada com o Rio, conseguiu contrariar essa ordem e tornou-se um aclamado "policial-heroi" ao implantar um plano de pacificação que despertou um renascimento da cidade antes de receber a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016.

Reconhecido pela eficiência técnica e distância das questões políticas, sua imagem de sucesso se confunde com o momento de prosperidade da própria cidade e, mesmo a contragosto, seu nome já está entre os mais cotados para ser o próximo governador nas eleições de 2014.

A reforma da segurança pública, que cumpriu as expectativas da população de combate ao tráfico de drogas e limpeza dos quadros da polícia, já deu ao atual governador Sérgio Cabral uma reeleição fácil com 66 por cento dos votos no ano passado.

Graduado em Direito e Administração de Empresas, Beltrame chegou ao Rio em 2003 para chefiar uma operação federal contra o tráfico de drogas. Passou dois anos morando sozinho no prédio da própria PF.

No final de 2006, quando estava de volta no Rio Grande do Sul, foi chamado pelo então governador eleito Cabral para assumir a Secretaria de Segurança Pública do Estado com a missão de combater a maior inquietação da população carioca nas últimas décadas -a violência urbana.

Às vésperas de completar cinco anos no cargo, Beltrame é o homem com mais tempo à frente da polícia do Rio nos últimos 35 anos, num cargo em que vários de seus antecessores foram demitidos, envolvidos em escândalos com o crime. Isso apesar do ciúmes, desconfiança e resistências de policiais e políticos favorecidos com o antigo sistema, que foram alvo pouco a pouco de uma faxina que levou à prisão centenas de policiais envolvidos em esquemas criminosos.

Como resultado, Beltrame não pode andar sem seguranças. Mesmo dentro de seu gabinete, que tem sempre o ar-condicionado ligado no máximo faça chuva ou sol e onde não pode faltar o inseparável chimarrão, guarda-costas protegem a porta.

Quando vai correr no entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas -hábito que aprendeu com a segunda mulher, Rita, a quem conheceu na quadra de uma escola de samba à época em que ainda vivia no velho prédio da PF, o secretário também tem a companhia dos seguranças que, à paisana e a uma certa distância, mantêm a forma seguindo o patrão.

O constante estado de alerta, no entanto, não retira seu foco de dar prosseguimento ao que está sendo feito.

"Se a gente pensasse na gente, na pessoa José Mariano, nós sairíamos agora, porque é aquela velha história, sairíamos por cima. Agora, eu te digo o seguinte, a gente tem propostas, a gente tem ideias, planos... A gente tem horizonte. A gente vislumbra a possibilidade de deixar um rastro forte", disse Beltrame à Reuters.

SEM ESTUDO EM HARVARD

O sucesso de Beltrame, que está na capa de revistas este mês em listas de "personalidades do ano", tem como base a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em algumas das favelas espalhadas pela cidade.

O plano, que consiste na implantação de um quartel policial comunitário dentro de favelas que por décadas foram dominadas por facções criminosas, foi de encontro com a expectativa da população de enfrentamento ao poder do tráfico de drogas e de milícias.

"Aqui se fez o óbvio, o que eu fiz aqui todo o Rio de Janeiro sabia o que tinha que fazer. Isso aqui não foi copiado de Nova York, da Colômbia, ninguém estudou em Harvard aqui para fazer isso. A gente simplesmente fez os que os taxistas, os universitários, os policiais, a mídia, todos sabiam o que tinha que fazer. Mas tem que ter coragem para enfrentar."

Ainda que presentes em apenas cerca de 20 das centenas de favelas da cidade, as UPPs foram responsáveis por reduzir drasticamente os índices de criminalidade do Rio. Houve uma redução de 26,6 por cento na taxa de homicídios por 100 mil habitantes de 2006 para 2010, caindo de 40,6 para 29,8, de acordo com o governo do Rio. A média brasileira foi de 21,5 mortes por 100 mil habitantes no ano passado.

A maiorias das ocupações, no entanto, aconteceu em favelas perto das áreas mais ricas da cidade, o que despertou críticas de que o programa tem como objetivo impulsionar a valorização imobiliária dessas regiões e preparar a cidade para a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Grandes favelas em áreas mais distantes ainda estão sob controle do tráfico ou de milícias formadas por policiais e bombeiros.

Quando anunciou o Rio como vencedor da disputa com Chicago, Madri e Tóquio pelo direito de fazer os Jogos Olímpicos de 2016, membros do Comitê Olímpico Internacional disseram que era possível confiar na segurança da cidade para o evento após visitarem a UPP do Morro Dona Marta, a primeira a ser implantada, em dezembro de 2008.

O desafio de Beltrame, chamado nos corredores do governo apenas de Mariano, começou antes mesmo de ele assumir o posto. Em dezembro de 2006, traficantes promoveram um ataque em série a pessoas nas ruas, veículos e alvos policiais, causando dezenas de mortes e provocando um sentimento de desespero coletivo na cidade.

Beltrame então ajudou a coordenar o contra-ataque das forças policiais, que incluiu uma resposta violenta em favelas que grupos de direitos humanos acusaram ter sido recheada de execuções.

Uma certa vista grossa às milícias e a tática de uso extremo da força nas favelas no início da administração de Beltrame é uma das poucas críticas que se faz ao secretário.

A maioria das ocupações de morros para a entrada das UPP, no entanto, foi realizada sem violência, com avisos prévios e sem a necessidade de disparos e banhos de sangue. Dessa forma, o projeto conquistou rapidamente o apoio de moradores, que antes tinham suas vidas "sob o julgo do fuzil" -definição recorrente utilizada pelo secretário para descrever o domínio do tráfico nas favelas.

"A utopia na cabeça do Beltrame é levar a paz ao Rio de Janeiro, é reduzir pesadamente os índices de criminalidade e democratizar a vida pública no Rio. É uma utopia que ele continua perseguindo, e é uma utopia realizável", disse à Reuters o ex-ministro da Justiça Tarso Genro, que foi professor de Beltrame no curso de Direito da Universidade Federal de Santa Maria (RS) e que destinou recursos do governo federal ao projeto das UPPs quando estava no ministério.

"PESA NOS OMBROS"

Após a ocupação no mês passado da favela da Rocinha -a maior da cidade com cerca de 100 mil moradores e de onde chefes do tráfico foram presos ao tentar fugir sob a escolta de policiais que acabaram detidos-, Beltrame foi aplaudido nas ruas diante das câmeras por moradores que tinham acabado de assistir à tomada do morro sem um tiro sequer.

"É hipocrisia dizer que a gente não gosta de ser reconhecido pelas pessoas, mas como eu venho de uma natureza muito humilde, isso pesa demais nos meus ombros. Isso me pressiona, me deixa com a obrigação cada vez mais de não poder errar", disse ele.

O enfraquecimento das quadrilhas do tráfico de drogas e a previsão de ampliação das UPPs para outras regiões mexeu com interesses e negócios construídos ao longo de anos de negligência, corrupção e conivência do Estado.

Beltrame sofreu então sua maior prova de fogo no cargo, no final de 2010, com novos ataques em série nas ruas que aterrorizaram a cidade por quase uma semana.

O que parecia colocar em xeque o projeto, no entanto, resultou em mais um sucesso para o secretário. Contando com o apoio inédito das Forças Armadas, que emprestaram homens e veículos blindados de combate resistentes aos ataques dos criminosos, a polícia invadiu o Complexo do Alemão, um conjunto de favelas que servia como quartel-general da maior facção criminosa que agia na cidade há décadas.

A ação foi transmitida ao vivo por TVs, que flagraram cenas que todos os cariocas sempre quiseram ver: traficantes fugindo em massa da polícia que se aproximava.

O local transformou-se num símbolo da transformação social efetuada com a entrada da polícia. Junto com a UPP chegaram um sistema de transportes por teleférico, escolas, atendimento médico e até um cinema 3D. O Alemão, no entanto, ainda não recebeu sua unidade de polícia comunitária, já que as forças precisam ser treinadas. O Exército tem se encarregado de proteger a comunidade.

Com o segundo e último mandato do governador Cabral terminando em 2014, Beltrame tem sido citado frequentemente na mídia como o sucessor natural, com o prospecto de ser o homem forte do Rio durante as Olimpíadas. Com a mesma firmeza que diz não se intimidar no combate ao crime, garante que isso não passa por sua cabeça.

"Não tem nada disso. Não sei fazer política. Sou policial."

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