Atraso no combate à pandemia equivale a massacre; leia análise de ex-presidente da Anvisa

A reunião entre os Poderes foi encerrada sem a indicação qualquer medida objetiva e ficou claro que não haverá nenhuma tão cedo

Claudio Maierovitch*, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 10h56

As notícias iniciais deste 24 de março eram alvissareiras. Finalmente, mais de um ano depois do início da pandemia, seria constituída uma coordenação nacional para enfrentá-la. Dirigentes dos Três Poderes e governadores superariam divergências políticas e construiriam um plano nacional, indicando princípios, diretrizes e especialmente iniciativas concretas e recursos.

Ações baseadas em conhecimentos e cuja efetividade vem sendo demonstrada em diversos países seriam anunciadas. No dia seguinte, e por pelo menos mais três semanas, somente poderiam funcionar os serviços essenciais, cuja lista seria resumida, com a exclusão de atividades religiosas, academias, salões de beleza e congêneres. Viagens interestaduais e internacionais ficariam limitadas, a circulação de pessoas ficaria restrita às necessidades inadiáveis, máscaras faciais seriam de uso obrigatório para todos que deixassem suas casas, em todo o território nacional. 

Além de providências imediatas para garantir o suprimento de produtos aos serviços de saúde, negociações com fornecedores de vacinas seriam aceleradas e os contratos de fornecimento tornados públicos.

Entrariam no rol de medidas para apoiar o confinamento a revisão do valor do auxílio emergencial, que voltaria a ser de R$ 600 enquanto perdurasse a epidemia e a contratação emergencial de profissionais de saúde para duplicar a capacidade das equipes da atenção primária para rastrear e monitorar o isolamento de casos e contatos, com ampla disponibilidade de testes para diagnóstico. 

Uma grande campanha de comunicação teria início, levando informações e orientações baseadas na ciência a todos os segmentos, inclusive sobre a inexistência de tratamentos precoces e o risco daqueles que têm sido divulgados. 

Era para ser assim. Infelizmente não foi.

Aqueles governadores que têm se organizado para agir em conjunto não foram chamados e nem representantes de prefeitos. Gente com conhecimento de saúde pública tampouco estava entre os convidados. A reunião foi encerrada sem a indicação qualquer medida objetiva e ficou claro que não haverá nenhuma tão cedo, como se a velocidade não fosse importante quando o país ultrapassou a tenebrosa marca de três mil mortes em um único dia.

A pretendida “despolitização” foi tomada ao pé da letra, pois nenhuma política foi sequer esboçada. Perder tempo agora equivale a massacre!  

*Ex-presidente da Anvisa, é médico sanitária da Fundação Oswaldo Cruz e ex-diretor de Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde

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