Pequena Borá até ''''importa'''' gente

Cidade menos populosa do País tem usina que emprega o dobro da população

José Maria Tomazela, SOROCABA, O Estadao de S.Paulo

17 de novembro de 2007 | 00h00

A única indústria de Borá, no oeste paulista, a 520 km de São Paulo, emprega mais do que o dobro da população da cidade. É um caso inédito no Brasil: 1.800 trabalhadores ali chegam em grandes levas, todas as manhãs, transportados por ônibus procedentes de 14 municípios vizinhos, para ganhar a vida na usina de açúcar e álcool Ibéria, do grupo Toledo. A cidade que os recebe, porém, não tem mais que 804 moradores, ostentando - sem nenhum orgulho - a condição de cidade com a menor população do País. Os ônibus chegam a congestionar a área urbana, que consiste em uma rua principal cortada por uma dezena de travessas. Mas os que chegam no fim do dia vão embora, ninguém fica na cidade. "Continuamos na rabeira, mas vai ser por pouco tempo", promete o prefeito Nelson Celestino Teixeira (PSDB), um tanto desolado ao constatar que a cidade tem hoje apenas nove moradores a mais que os contados no censo anterior. Quando a indústria apareceu, Teixeira chegou a se animar e apostou todas as fichas numa virada. O que não esperava é que seu projeto fosse esbarrar num problema insolúvel - a falta de moradias e a dificuldade para construí-las. "O pessoal até procurou, mas não tem uma casa sequer para alugar", lamenta. Em resposta, saiu atrás de recursos. Em contato com a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), órgão do governo estadual, obteve financiamentos para a construção de um novo núcleo com 150 moradias. Mas as obras, para seu desencanto, estão demorando muito. "A usina já está moendo sua terceira safra de cana e não conseguimos aprontar uma única casa", compara o tucano. Na verdade, 60% das obras do primeiro núcleo, com 100 residências, estão prontas - para mostrar serviço o prefeito até já sorteou as casas. "Assim que pudermos entregar as chaves, essas famílias vão mudar para cá. Aí é só esperar a nova contagem do IBGE", diz Celestino, sonhando com o dia em que Borá consiga se livrar, enfim, da incômoda lanterninha.Como a usina fica a sete quilômetros da área urbana, o movimento em Borá é próximo de zero. Ela tem uma única agência bancária. Na pracinha central, o escasso sinal de vida vem dos moradores que jogam baralho. O movimento é maior apenas nos dois postos de combustível, quando ali param, para se reabastecer, os ônibus com os trabalhadores.Como outras cidades pequenas, Borá sofre de um esvaziamento que, nos últimos anos, se acentuou: as famílias vão para centros maiores, em busca de emprego, lazer e escolas. Às vezes, essa mudança é rápida e intensa. Na fronteira entre São Paulo e Paraná, por exemplo, a cidadezinha de Riversul encolheu 20% em sete anos - caiu de 7.192 moradores para pouco mais de 5.900, porque boa parte da população foi buscar uma vida melhor em Salto e em Votorantim, não muito longe dali. Em cada uma delas, segundo o prefeito, há quase um bairro inteiro de ex-moradores de Borá. Gente que serve, nas contas do governo, para aumentar o Fundo de Participação dos Municípios dos vizinhos.

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